quarta-feira, dezembro 29, 2010

ATÉ QUE AS ESCOVAS DE DENTE NOS SEPARE


Por Letícia Vidica


Se não fossem as roupas do Pierre espalhadas pela casa, o vaso sanitário de tampa aberta e com respingos de urina, as escovas de dente no armário do meu banheiro ou as latas de cerveja e energético na minha geladeira, eu mal teria percebido que o Pierre estava de mala e cuia lá em casa.

Já fazia mais de um ano que a gente estava junto e ele foi entrando na minha vida tão rápido que eu mal percebi que também tinha entrado no meu apartamento. Mas, a presença surpresa da minha mãe naquele domingo de manhã me flagrando despenteada e sonolenta me despertou para esse fato.

- Oi, filha! Te acordei? Se bem que já passou da hora de levantar né? – dizia ela olhando para o relógio e não perdendo a oportunidade de me recriminar.

Antes que eu pudesse dizer algo, o Pierre apareceu de cuecas e sem camisa no meio da minha sala para o espanto de toda a moral da minha mãe.

- Ops, desculpa sogrinha. Não sabia que a senhora estava aí. Vou aproveitar para me trocar e buscar uns pãezinhos para gente na padaria.

Eu apenas me sentei no sofá e preparei os ouvidos para o interrogatório que começou enquanto ele tinha ido saído.

- Diana, o Pierre está morando com você?

- Que história maluca, mãe. Ele apenas dormiu aqui em casa.

- Como na semana passada quando seu pai esteve aqui? Não adianta me enganar, Diana. Sei que você não mora mais com a gente, mas enquanto nós formos vivos não vamos aceitar bagunça. Eu e seu pai não vamos aceitar filha morando com namorado sem papel passado.

Nem adiantava eu perder o meu tempo tentando explicar para minha mãe que os tempos eram outros e que nem passava pela minha cabeça, naquele momento, morar com ele. Mas, como sempre, o sermão da minha mãe me despertou para um fato que estava diante dos meus olhos e eu não via. O Pierre estava morando comigo.

No começo, ele dormia em casa com a desculpa de ficar mais tempo comigo, depois com a desculpa de dirigir porque morava longe e depois de um tempo não havia mais desculpa para isso. Ele simplesmente estava lá e pronto. Até a mãe dele ligava na minha casa para matar a saudade do filho que mal parava na casa dele.

- Oi, Diana, o Pierre está aí? – perguntava minha querida sogrinha.

- Está tomando banho.

- Eu sabia que eu ia achar ele aí. Parece até que esqueceu que tem família. Só vive enfiado na sua casa agora né?

Se não bastasse o sermão puritano dos meus pais, eu ainda tinha que agüentar a encheção da sogra.

No começo, a vinda do Pierre para a minha casa foi um mar de rosas. Era bom tê-lo quase todos os dias ao meu lado, na minha cama, me fazendo ninar e me oferecendo sexo na hora e no lugar que eu quisesse. Porém, com o tempo, eu me cansei de inventar pratos novos e optei pelo macarrão instantâneo; deixei a lingerie sexy de lado e vesti o pijama velho de bolinhas; esqueci até a delicadeza e comecei a dividir com ele certos hábitos nojentos do ser humano que todo namorado finge esquecer.
A gente estava vivendo uma vida de casado sem estar casado. E, quando isso acontece, não há como fugir da rotina nem das temidas brigas imbecis que surgem com a convivência.

- Pierre, quantas vezes eu vou ter que pedir para você não deixar suas roupas espalhadas pela casa? – eu dizia furiosa ao chegar do trabalho e ver que a cueca e o moleton que ele usou no domingo ainda estavam caídos ao lado do sofá – detalhe, era sexta-feira.

- Eu já vou guardar, amor. – dizia ele sem tirar o olho da televisão.

- Quando? Ano que vem? Isso tá desde domingo aqui! Tô cansada. Minha casa tá virando um chiqueiro!

- Não exagera, Diana. Eu já vou pegar.

- Eu quero que você pegue isso agora! – eu disse desligando a televisão.

Pierre então se levantava nervoso, recolhia a roupa, jogava em um canto qualquer e saía de casa dizendo que não agüentava mais morar comigo, que eu era chata e que ele ia voltar para casa da mãe dele. No final, ele aparecia de volta no dia seguinte.
Mesmo sabendo o fim da novela, eu estava me cansando de tudo isso. Queria meu canto, minha liberdade de volta.

- Meninas, acho que vou expulsar o Pierre de casa. – eu desabafava com Betina e Lili.

- O que aconteceu? Vocês terminaram? – perguntava Lili assustada.

- Não. É que eu não agüento mais ele lá em casa. A gente briga toda hora por besteira, já nem transamos direito, sem contar que o meu apartamento virou um chiqueiro e que eu perdi a minha liberdade dentro da minha própria casa!

- Apoiada! Eu disse a você que esse negócio de dividir apartamento com homem depois de morar sozinha por muito tempo não dá certo. O negócio é ele lá e você cá.

- Pois é, Betina. O pior é que eu não sei como dizer isso pro Pierre.

- Acho besteira. Ele pode ficar bravo, entender tudo errado e você ficar chupando o dedo.

- Será, Lili?

- Não vai na dela, Diana, Conversa com jeitinho. Ele vai saber entender. – incentivava Betina.


Agüentei aquela vida de casado por mais um mês, mas quando vi que a idéia de casar realmente estava fazendo parte da cabeça do Pierre, tive que surtar.

Certa noite, ele chegou em casa com um convite de casamento de um amigo dele. Sondou dizendo que todos os amigos dele estavam casando e só ele ficando para trás e que a gente devia aproveitar a oportunidade e pensar no assunto também. Foi a deixa.

- Acho ótima idéia, mas enquanto a gente pensa, você na sua casa e eu na minha ok?

- Como assim, Di? – questionou Pierre de olhos arregalados.

- Não me leve a mal, mas a gente já está praticamente casados e desse jeito eu não quero. Olha só para a minha casa? Eu não tenho mais organização, não tenho mais espaço para mim, me sinto sufocada. Sem contar que a gente ultimamente só briga por coisas banais, nem sexo a gente faz mais direito. Desculpe, Pi. Não estou terminando a nossa relação. Só quero ter você aqui em casa como era antes. Quero ter saudades, poder preparar um jantar especial, vestir uma lingerie nova...você me entende né?

Ele me olhou com semblante de mistério, depois me deu um abraço e um beijo prolongado na testa.

- Você tem toda razão. Eu nem percebi a invasão. Acho melhor separar nossas escovas de dente mesmo.

Nos olhamos, rimos e mesmo espantada com a decisão dele também, me deixei levar e aproveitamos aquela noite para reacender a chama da nossa paixão e finalizar o nosso ‘casamento’.

PAPO DE CALCINHA: E, VOCÊ, JÁ TEVE QUE DIVIDIR A CASA COM ALGUÉM? GOSTOU? DEU CERTO OU TEVE QUE 'SEPARAR' AS ESCOVAS?

quarta-feira, dezembro 15, 2010

CAIU NA REDE É PEIXE


Por Letícia Vidica



Já estava ficando incomodada com aquele homem, que eu nunca tinha visto mais gordo, me encarando na fila do banco. Até segurei a minha bolsa com mais força porque tinha certeza de que seria assaltada. Tudo bem que quem sairia no prejuízo seria o ladrão, mas ser assaltada bem no dia do meu pagamento não estava nos meus planos!
Paguei as contas e, quando ia saindo da agência, percebi que o tal homem não só me seguia com o olhar, como abriu um sorriso cheio de intimidades e me seguiu. Não pude mais fugir. O assalto era agora!

- Diana? Tudo bem? – perguntou aquele homem que me encarava no banco. – Lembra de mim né?

Eu bem que adoraria lembrar, mas não lembrava. Minha cabeça já estava pegando fogo de tanto acessar meu banco de dados. Seria alguém que eu beijei na balada? Devia estar bêbada para não lembrar né?

- Desculpe, mas eu não lembro. – nessas horas nada melhor do que ser sincera.

- Sou o Rui. Seu amigo.

Continuei olhando com cara de quem precisava de mais pistas.

- Rui do surf. Sou seu amigo no Orkut e no Face... a gente participa da mesma comunidade. “Amo praia”. Poxa, adorei seu último post. Ah e valeu por me adicionar viu? E aí? Fazendo o que de bom?

Espera’í. Para o mundo que eu quero descer. Eu mal me lembrava que tinha Orkut e Facebook. Muito menos me lembraria do meu último post! E o cara ainda vem pagando de meu amigo? O mundo está realmente perdido!

***

- E você deixou o cara falando sozinho? – perguntava Betina enquanto eu terminava de contar essa história maluca para as meninas.

- Me poupe, né, Betina! As pessoas agora se acham íntimas só porque nos conhecem pela internet?!

- Isso que dá ficar adicionado o povo só para ter amigos. Daí paga uns micos desses! – ria Betina. – Por isso, que eu sou anti tudo isso aí. Odeio. Para mim, o contato tem que ser real. NÃO É LILI? – berrou Betina para chamar atenção da nossa amiga que não parava de mexer no seu Blackberry.

-Ahn? Desculpe, meninas, o que vocês estavam falando mesmo?

- Aposto que estava twitando. – sugeri.

- Ah, eu estava só dando uma olhadinha no meu Face e no do Luis Otávio, claro né.

- Você já tá irritando com isso, Lili. Toda vez que a gente sai é isso. Qualquer dia ainda queimo esse seu bichinho virtual. – ralhava Betina.

- Só porque você quer viver no tempo da pedra, não significa que eu tenha que viver também, Betina.

A Lili era mega ultra super conectada. Tinha Facebook, Twitter, Orkut e todas essas outras coisas de relacionamento virtual que o mundo inventasse. O problema é que ela andava ficando paranóica. Toda vez que a gente saía, ela ficava fuçando nessas coisas e mal ouvia nossas conversas. Eu e a Betina estávamos até começando a evitar chamá-la para conversar. Afinal, ela não ia ouvir mesmo.

***

Eu sempre fui meio desligada, apesar de ser publicitária, não sou tão plugada quanto deveria. Sou do tipo que conhece, mas enjooa fácil. Ainda prefiro um bom livro e conhecer as pessoas no olho no olho.

O problema é que viver desplugada hoje em dia faz com que você se sinta um E.T. Todo lugar que se vá, em qualquer mesa de bar e, principalmente, no serviço o assunto é o mesmo. A mais nova bomba da internet.

- Vocês já viram a última da net? Abre a porta, Maria? Muito boa. – comentava um colega de trabalho no meio do expediente.

- Nossa, o vídeo é muito bom! Já tem milhões de acessos. – respondia outro.
Enquanto isso, eu tentava imaginar o que seria ‘Abre a porta, Maria’.

- O que você achou, Diana? – perguntava algum infeliz para me fazer sentir ainda mais um peixe fora d’água.

- Eu? Ah...eu? Ai, gente, confesso! Não faço a mínima idéia do que seja isso.

- NÃO?! – perguntaram todos abismados.

Tudo bem que fiquem abismados se eu não souber o nome do Presidente da República ou o que acontece na Bolsa de Nova York. Agora ninguém me contou que eu era obrigada a saber o que era ‘Abre a porta Maria’. E antes não ficasse sabendo porque se tratava de um vídeo idiota de um cara bêbado que chega em casa trançando as pernas e fica berrando para a empregada abrir a porta. E algum vizinho sem nada para fazer ou com muita insônia ou que devia odiar o tal cara, gravou a gafe do vizinho. O meu lado inútil virtual agradece por saber agora saber quem é esse cara.

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Um outro problema, negativo, de ser ultraconectada é que isso impacta diretamente na sua vida real. Admiro o sábio que disse que Orkut, Facebook e qualquer outro site de relacionamento destrói relacionamento. E pira qualquer um também. Certa vez, quando eu ainda namorava o Pierre, entramos numa crise virtual conjugal por causa disso.

- Ué, Pierre, não vai vir jantar aqui em casa? – perguntei ao telefone depois de esperar ele por mais de uma hora. – A macarronada já tá esfriando.

- Pode comer sozinha. Eu não vou. Perdi a fome. – respondia ele com voz de quem estava com indigestão.

- Como assim, eu não vou?! A gente tinha combinado! Posso saber que bicho te mordeu?
– perguntei sem entender nada.

- Nada, Diana. Eu não preciso dizer.

- Ah, precisa sim. Se não, eu não vou entender nada.

- Então, dá uma olhadinha no seu Orkut.

- O que tem o meu Orkut, Pierre?

- Chama o Fá Melodia para jantar na sua casa!

- Fá o que?

Sem me responder, ele desligou o telefone. Fiquei sem entender nada e, para tirar a história a limpo, entrei no meu Orkut – que já estava desatualizado há décadas – e fui olhar os scraps. Daí, vi que um tal de Fá Melodia tinha me deixado um singelo recado. “Oi, gatinha. Saudades. Apareça”. O recado era até fofo, mas o problema é que eu não fazia idéia de quem era Fá Melodia.

Passei a noite toda, fuçando no Orkut e nas minhas memórias para descobrir. Até que lembrei que Fá Melodia era o Fábio Castro. Um colega de primário. Coisas do Orkut. Eu nunca tive amizade com ele, mal nos falávamos no colégio, nos reencontramos no Orkut, eu o adicionei por educação e agora o tal Fá Melodia (que tinha virado pagodeiro também) estava causando uma crise no meu namoro. Mas isso não ia ficar assim!

- Então, você me deixa no vácuo por conta do Fá Melodia? Quer saber quem é ele? – eu dizia ao Pierre.

- Não me interessa mais. Só é bom saber que você anda dando intimidade pros outros.

- Me poupe, Pierre. Intimidade? Esse menino estudou comigo no primário, nunca fomos amigos, eu fui apenas educada ao adicioná-lo nessa merda de Orkut e também fiquei sem entender a intimidade. Olha aqui a minha foto de primário. Ele é o carequinha!
Pierre olhou a foto com cara de poucos amigos.

- Resolvido agora? Ou vai ficar com essa cara de bosta por conta disso?

Ele ficou mudo.

- Agora, falando em intimidade...eu que quero saber quem é Vivi!

- Vivi? – ele olhou assustado.

- Isso mesmo, Vivi. Anda te deixando muitos recadinhos. Várias mensagens bonitas, cheias de bonequinhas, estrelinhas...QUEM É VIVI?

Ficamos mais de uma hora discutindo por causa do Fá Melodia e pela tal Vivi. Resultado: uma semana sem falar um com o outro. Mas, ainda bem que caímos na real, e antes que deletássemos os nossos Orkuts, resolvemos não cair na pilha dos scraps. Podíamos até terminar o namoro, mas não pelo Orkut.

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- Gente, vocês já viram o vídeo da coelhinha? – perguntava um outro amigo da agência de publicidade.

- Lá vem você com esses vídeos. – eu respondia incomodada com mais uma novidade da net.

Enquanto isso, a galera se amontoava em cima do computador dele para ver o tal vídeo da coelhinha. Eu tentei resistir à curiosidade e continuar trabalhando, mas os comentários e as risadas me impediram que eu continuasse fora da rede. Resolvi olhar.

- Que ridículo! Quem é a mulher que se expõe a esse ponto? Ser filmada de coelhinha dentro de um motel? ... Peraí, gente, volta esse vídeo...não, eu não acredito...
Peguei minha bolsa e saí correndo. Todo mundo ficou sem entender nada. A coelhinha da internet era a Lili. Ela tinha caído na rede. Fui correndo para casa dela. Chegando lá, a encontrei aos prantos nos braços da Betina.

- Lili, você tá bem?

- Você também já está sabendo? – ela me abraçou e chorou mais ainda. – O Luis Otávio não podia ter feito isso comigo!!!

- Lili, como você vacilou hein? Que cachorro!

- Eu não posso mais sair de casa. Acho que vou mudar de país. Até num ranking de vídeos de um programa de tevê, eu apareci. Minha vida acabou!
- Não exagera vai, Lili. Daqui a pouco, surge outra boba como você e todo mundo te esquece. – respondia Betina.

- Será?

A fama instantânea da Lili durou exatamente uma semana. Na semana seguinte, uma tal de cachorra do funk roubou a cena da internet e ninguém mais lembrava da Coelhinha Lili. Bom porque minha amiga aprendeu a viver mais no mundo real. Ruim porque nem isso fez com que ela acabasse com o canalha do Luis Otávio.

PAPO DE CALCINHA: E, você, o que a internet já lhe causou?

segunda-feira, novembro 22, 2010

RECAÍDA


POR LETÍCIA VIDICA


'Ding dong'. Quem poderia ser àquela hora em plena quinta-feira?

- Pierre! - eu disse assustada ao vê-lo parado na minha porta e por estar trajada de pijamas de bolinhas e pantufas.

- Estava dormindo? Se quiser, volto outra hora. - ele dizia praticamente dentro do meu apartamento e ao me observar de pijamas.

- Não, que isso. Entre.

Confesso que fiquei um pouco sem jeito de recebê-lo. Parecíamos dois estranhos no ninho. É muito engraçado quando a gente reencontra o ex assim de repente. Ainda mais se o ex é quem resolve te encontrar. A gente não sabia se nos beijávamos na boca ou na bocheca. Então resolvemos nos dar um singelo abraço.

- Nossa, quanto tempo! - eu dizia na expectativa de quebrar o gelo. Afinal, o que eu diria a ele depois de tanto tempo? Fazia quase um ano que a gente tinha terminado o namoro e desde então eu não tinha tido mais noticias dele.

- Pois é...até desculpa vir assim...é que eu estava passando aqui perto e resolvi vir te ver. Saber como você está...você tá bem? - ele perguntava esfregando as mãos e com cara de quem estava suando frio porque queria me dizer algo mais.

- Fico feliz de te ver também. Eu estou bem. Na mesma...trabalhando feito uma louca lá na agência. Mas e você o que está fazendo de bom?

É engraçado como duas pessoas que até tão pouco tempo tinham tanta intimidade se tornam completos estranhos num toque de mágica. Naquele momento, as palavras me faltavam e eu também não me sentia nada a vontade de pijamas na frente dele. Uma completa besteira para quem me conhece dos pés a cabeça né? Percebi que o Pierre também estava um pouco nervoso e eu ainda não tinha entendido ao certo o motivo da visita dele.

Ficamos conversando por umas duas horas sobre o novo negócio que ele estava abrindo com um amigo, sobre suas expectativas, sua família...assuntos superficiais e banais. Até então não tinhamos questionado nada sobre a nossa intimidade.

De repente, enquanto Pierre dava um gole na cerveja que estávamos bebendo, ele ficou mudo e me olhando. Confesso que fiquei sem graça com aquele olhar e resolvi perguntar se tinha algo errado e porque ele me olhava daquela maneira.

- Estava olhando você com esse pijama e senti saudades.

- Do quê? Do pijama?

- De você.

O que eu iria dizer depois daquela declaração? Resolvi apenas escutá-lo.

- Saudades. Foi por esse motivo que eu estou aqui. Me bateu uma saudade e resolvi te procurar. E te olhando assim de pijama, me senti como nos velhos tempos quando a gente conversava até altas horas da noite e depois íamos dormir abraçadinhos.

- Pierre...

Antes que eu concluísse a minha frase, ele se levantou e literalmente me agarrou, roubando um beijo. E eu? Não fiz o menor esforço para resistir. Naquele momento, esqueci de tudo e caí nos braços dele. Confesso que eu também estava com saudades. Resumo da ópera: passamos a noite juntos. Foi maravilhoso e só acordei com o toque da campainha.

- Diana?! Acho que atrapalhei algo né? - dizia Betina com cara de assustada ao me ver nua enrolada num lençol.

Nem pude explicar porque logo atrás o Pierre apareceu de cuecas na sala.
- Ops, Betina. Desculpe.

- Que isso, gente. Eu volto outra hora.

- Não , entra. Eu já vou embora. - disse Pierre.

Ele se trocou, me beijou e prometeu me ligar depois. Enquanto isso, Betina permaneceu muda à espera de uma brecha para me crucificar.

- Pode ir me explicando tudinho, mocinha. - dizia minha curiosa amiga depois daquele flagra.

- Não é nada do que você está pensando, Bê. - eu tentava convencer a mente criativa dela que naquela altura do campeonato já tinha remontado a história na sua cabecinha e tirado suas próprias conclusões.

- Ah não? Eu flagro os dois peladões e você me diz que não é nada?

- O Pierre veio me ver ontem à noite com um papinho de que queria saber como eu estava, depois acabou confessando que estava com saudades e acabamos transando. Mas foi só isso.

- Sei, sei, dona Diana. Eu te conheço muito bem. Não aguentou e teve uma recaída né?

- Pára de besteira, Betina. Foi uma bobagem e já passou.

*********************

Teria sido apenas uma bobagem mesmo? Se fosse bobagem, aquela noite teria saído a minha mente rapidamente, mas passei o resto do dia pensando naqueles momentos. Aquele reaparecimento do Pierre parecia ter acendido algo que para mim já não existia mais. Eu, ao menos, conseguia odiá-lo por ter me dado um pé na bunda e por ter sumido.

Achei que depois daquela noite o Pierre já tinha saciado o seu desejo e não me procuraria. Engano meu. Na noite seguinte, ele me convidou para jantar e eu aceitei. Parecia que era de propósito. Ele me levou ao mesmo restaurante em que tivemos nosso primeiro encontro.

- Espero que goste do lugar. - ele dizia com tom de ironia como se soubesse o quão marcante e importante tinha sido aquele restaurante.

- Acho que você podia ter me surpreendido mais. Não esqueça que continuo exigente hein?

- E linda...e quente. Amei a nossa noite. Você não mudou em nada.

Não sabia se considerava aquilo um elogio como quem diz 'Você é muito boa e não existe ninguém melhor do que você' ou 'Nossa, pensei que você tivesse evoluído'.

Preferi acreditar na primeira opção e curtir o momento. Passamos uma noite maravilhosa com direito a vinho, fondue e mais uma noite longa e maravilhosa de amor.

E foi assim pelas nossas próximas nove semanas e meia de amor. O Pierre começou a me ligar quase todos os dias, saíamos aos finais de semana , ele voltou a dormir em casa...engatávamos um relacionamento no qual eu não sabia classificar. Rolo? Namoro? Amizade? Ou apenas uma recaída?

- E aí, amiga, vai sair? - perguntava Betina ao chegar na minha casa e me ver terminando de fazer uma escova.

- Vou almoçar na casa do Pierre.

- Tá assim já? Vocês voltaram?

- Ah, eu não sei, Betina. Faz três meses que estamos saindo de novo, mas até agora ninguém falou em namoro.

- Vai com calma, Diana. Não se envolve. Isso pode ser apenas uma recaída. Coisa comum de acontecer com qualquer casal que se reencontra depois de tanto tempo juntos.

- Será? O pior é que eu acho que já estou envolvida.

E eu realmente estava. No meu íntimo, alimentava a esperança de que a gente fosse voltar. E, naquele domingo, resolvi voltar a me envolver com a família dele também. Encarei o almoço de domingo com a sogrinha. Ou melhor, ex. Ah, sei lá, com a mãe do Pierre.

- Diana!!! Que bom te ver por aqui. Vocês voltaram? Finalmente. - perguntava a mãe dele com a excentridade de sempre.

Eu não sabia o que dizer com aquela declaração. O Pierre ficou calado e eu permaneci muda. Para mim, quem cala consente. Passamos uma tarde maravilhosa em família. Por um instante, me senti novamente um membro dela.

Quando estávamos voltando para casa, resolvi perguntar ao Pierre o que tanto me amedrontava.

- Pi, sem querer te cobrar, mas ... hoje sua mãe ao me perguntar se estávamos juntos me fez pensar...o que a gente tem afinal?

- Um lance. - dizia Pierre enquanto dirigia e sem olhar para os meus olhos.

- Um lance? E o que isso significa?

- Que temos um lance. - dizia ele me acariciando as mãos.

Aquela definição de lance foi o bastante para que eu começasse a entender que aquela relação não teria futuro. E tudo o que eu menos queria naquele momento era ter um lance com o meu ex-namorado. Acho até que o meu questionamento o assustou porque o Pierre ficou sem me procurar por quase uma semana. Mesmo sofrendo, resolvi respeitar a sua ausência e a tocar a minha vida de novo sem ele.

************

- Posso entrar? - era ele altas horas da noite no meu apartamento. Confesso que meu coração disparou e impulsivamente fui logo dando um beijo nele que retribuiu friamente. Algo estava errado.

- Aconteceu alguma coisa?

- Aconteceu. - ele dizia com cara de assustado - Diana, a gente tem que parar com isso.

- Com isso o quê?

- Com o nosso lance. Está tudo muito bom, mas eu não estou preparado para encarar um relacionamento novamente e não acho justo te enganar.

- Eu já desconfiava - eu disse com lágrimas nos olhos - mas tenho que confessar que por um momento tive a esperança de que você voltaria para mim.

- Eu adoraria voltar, mas não estou preparado.

- Talvez você nunca esteja né? Boba eu achar que você mudaria um dia.
- Me desculpe, Diana.
Ele me beijou, me deu o último abraço e saiu pela mesma porta em que entrou me dizendo que estava com saudades. Não consegui segurar, caí em prantos. Chorei feito uma criança por duas horas sem parar. Quando consegui recuperar o fôlego, liguei para Betina.

- Ele se foi, Bê. O Pierre me deixou - eu dizia ainda com a voz embargada.

- Calma, Diana. Não é surpresa para ninguém que isso aconteceria né?

- Mas eu pensei que ele podia mudar. Que a gente ficaria juntos de novo.

- Aprende uma coisa, Diana. Ninguém muda ninguém. As pessoas só mudam se elas querem. E talvez o Pierre nunca mude. Se você se envolveu com ele, devia saber disso. O que vocês tiveram foi apenas uma recaída. Normal.

- Mas e agora o que eu faço? Eu estava quieta no meu canto, aprendendo a viver sem ele. Daí ele reaparece do nada, embaralha a minha vida e agora vem com esse papo de insegurança?!

- Você vai seguir em frente, amiga. A vida continua. E você não merece um cara inseguro. Mas me promete uma coisa. Se ele aparecer aí de novo, bata a porta na cara dele. E se você não tiver coragem, me chama que eu bato.

Só a Betina para me fazer rir num momento como aquele. E bater com a porta na cara dele não foi preciso. Até porque até o momento ele não mais me procurou.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ TAMBÉM JÁ VIVEU UMA RECAÍDA?

sexta-feira, novembro 12, 2010

NA HORA H



POR LETÍCIA VIDICA

- Acho que o Pierre não me ama mais.

- De onde você tirou essa besteira, Diana? – perguntava Betina enquanto bebíamos nossa rotineira breja de sexta.

- Da nossa vida sexual. Está uma merda. Ele deu para me evitar agora. Ontem, disse que estava com dor de cabeça. Semana passada, preferiu ir ao Pacaembu do que ao motel comigo. Estou arrasada! – confessava às minhas amigas.

- Ixi, acho que você não tá dando no couro hein? – ironizava Betina.

- Nada disso. Você precisa apimentar a sua relação. – dizia minha conselheira sexual e amorosa, Lili

- Lá vem você com as suas fantasias...

- Confia em mim ou não?

Eu bem que confiava, mas o apetite sexual e a mente criativa da Lili às vezes amedrontava. Porém, dessa vez, ela até que foi um pouco sensata. Me convidou para ir a uma sex shop. Eu sempre tive curiosidade de ir a uma dessas lojas, mas morria de vergonha de ser flagrada entrando ou da recepcionista ser a filha da minha vizinha.
Combinamos o passeio a três para o dia seguinte. Era caso de vida ou morte. Eu e o Pierre sempre tivemos uma relação sexual muito ativa. Para gente nunca tinha tido hora, nem lugar, nem razão para pimbar na cachulinha, mas de uns tempos para cá tudo andava muito monótono e programado. E, o pior de tudo, é que parecia que só eu me importava.

- Tá tudo bem com você, Pi? – eu dizia acariciando os cabelos dele.

- Tá sim. – ele respondia sem manifestar nenhuma reação aos meus carinhos.

- Tem certeza? – eu acariciava o tórax dele e continuava a não demonstrar nenhuma reação.

- Ih o que é, Diana? – perguntava o brutamonte quebrando todo o clima.

- Tô te achando meio frio. Nem fica mais pertinho de mim. A gente nem transa mais...

- Lá vem você com esse papo de novo. Já disse que está tudo bem e que é coisa da sua cabeça!

- Coisa da minha cabeça? E você lembra ao menos a última vez que fizemos amor?

...

- Ah lá, nem consegue lembrar porque faz tanto, mas tanto tempo né? Aposto que você tem outra.

- Pára de besteira, Diana. Eu lá tenho tempo para isso? Não é nada. Só não sou uma máquina de fazer sexo né?

E assim seguia a nossa discussão sobre nossa vida sexual que sempre terminava em brigas, mas nunca em sexo. Nem para isso mais as brigas serviam.

Então eu tinha que tomar uma iniciativa. Resolvi me desbancar até a tal da sex shop. A Lili já foi entrando na maior naturalidade e me apresentando aos produtos enquanto eu tentava me esconder atrás da bolsa e por entre as prateleiras. A Betina também pareceu familiarizada com o ambiente e resolveu ver as novidades em vibradores, seus velhos amigos.

- Olha só isso aqui, Diana. É uma loucura!

- Fala baixo, Lili. Alguém pode ouvir.

- Qual é, Diana? A gente está numa sex shop e não na igreja. Acho bom você relaxar se não desse jeito não vai dar certo.

Ficamos por umas duas horas na loja. A Lili me explicava quase tudo. Para quê servia, como usar, dava dicas etc etc etc. Saí de lá com uma sacola regada de fantasias, gel, máscara, acessórios, joguinhos eróticos. Uma bela compra sexual.
Liguei para o Pierre e pedi que ele passasse em casa mais tarde que eu tinha uma surpresa. Preparei um jantar gostoso à luz de velas, coloquei uma musiquinha especial, joguei pétalas de rosas pela casa, perfumei com incenso e vesti a tal fantasia de empregada.

A campainha tocou, meu coração disparou e abri a porta. O Pierre me olhou assustado e ao invés de começar a me beijar ferozmente, começou a rir.

- Não estou entendendo qual é a graça! – eu disse furiosa.

- Nada, amoré, você tá uma gatinha...mas é que eu lembrei...

- Do quê?

- Deixa para lá.

Resultado: me senti uma ridícula, desmanchei tudo, mandei o Pierre para casa e fiquei sem sexo.

- E aí, amiga, como foi a noite de amor? – perguntava Lili ao telefone logo cedo.

- Não teve noite de amor. Acredita que o Pierre riu de mim? Que idiota que eu sou!

- Não vamos desistir dessa batalha, amiga.

- Como não?

- Tenho uma idéia ótima. Que tal um passeio a quatro no sábado?

- Faço tudo para voltar a transar

Sem saber o que a Lili aprontava, convidei o Pierre para sair junto com ela e o Luis Otávio. A necessidade era tanta que eu me submeti a passar a noite ao lado daquele babaca.

- Chegamos! – dizia Lili toda empolgada enquanto parávamos o carro em frente ao um local que mais parecia um bar.

- Posso saber onde a gente está? – perguntava Pierre desconfiado.

- No paraíso, meu amigo, vamos entrar que você não vai se arrepender. – diz Luis Otávio dando tapinhas nas costas de Pierre e parecia familiarizado com o local.

Desconfiados, fomos adentrando o ambiente, sentamos em uma mesa que estava reservada, pedimos umas bebidas e fui percebendo a chegada de vários outros casais. Até aí, tudo bem. De repente, a recepcionista nos perguntou:

- Vocês vão participar?

- Claro! – respondia Lili empolgada.

- Do quê? – perguntei.

- Da sessão de swing. – dizia a recepcionista como quem diz que vamos cantar no karaokê, com a maior naturalidade.

O Pierre me olhou fuzilando e eu fuzilei a Lili. Nós estávamos numa casa de swing.

- COMO ASSIM SWING? – berrou o Pierre.

- Calma, Pierre. – tentei amenizar a situação.

O que era para ser pura diversão - se é que eu conseguiria me divertir - virou um porre. Enquanto a Lili e o Luis Otávio se esbaldavam com a galera, eu e o Pierre assistíamos a tudo sem o menor clima e sem ao menos nos tocarmos. Pouco tempo depois, levantamos e fomos embora.

Pierre foi o tempo inteiro calado e só resolveu falar quando parou o carro na frente da minha casa

- Acho que hoje você foi longe demais com isso né?

- Pierre, eu sabia o tanto quanto você. Nada. A Lili só me convidou para sair.

- Então quer dizer que suas amigas estão com piedade da gente? O que elas tem a ver com a minha vida sexual?

- Com a nossa, você quer dizer né? Eu me abro com elas sim! Confesso que não esperava isso dela, mas o que tem? Podia ao menos ter te animado né?

- E ficar transando com a minha namorada na frente dos outros? Você enlouqueceu né?

- Realmente, eu enlouqueci, Pierre. Enlouqueci porque quero que meu namorado me deseje, só isso! Mas acho que é pedir muito para você né?

Desci do carro, bati a porta com força e deixei ele falando. Subi para o meu apartamento batendo as tamancas. Para minha alegria ou tristeza, o Pierre subiu atrás de mim e, assim que eu abri a porta, ele me agarrou, me beijou com vontade e o resto você já sabe né? Lererê a noite toda. Finalmente, ele cedeu. Passamos o final de semana trancados no meu apartamento colocando a conversa em dia.

***

- E aí, Diana, resolveu o problema?

- Ai, Lili, você é uma figura. O Pierre odiou a surpresa, mas graças a sua idéia ele se redimiu e nos amamos novamente.

- Pelo menos, funcionou né? O bichinho acordou.

- Pois é, mas pelo amor de Deus, da próxima vez não inventa mais nada não ok? Deixa que eu me viro

- Tudo bem, eu só quis ajudar.

Até o momento, a chama ainda não baixou, mas quando vejo que ela está ficando morna dou meu jeitinho. Claro, sem bancar a empregada e nem muito menos querer encarar swing.

PAPO DE CALCINHA: E você já teve que usar alguma artimanha para reacender a chama? Qual foi a sua? Deu certo?

sexta-feira, novembro 05, 2010

PAIXÃO ANTIGA


Por Letícia Vidica

- Peticooooo?!

Fiquei pasma com aquela voz feminina que gritava o nome do meu namorado no meio do restaurante com tanta intimidade. E mais pasma ainda ao ver o abraço caloroso trocado entre os dois. E eu assisti de camarote àquela cena patética até os dois se tocarem da minha presença.

- Ah, Di, essa é a Valéria. – me apresentava Pierre ao relembrar que eu estava ali, estática e pasma.

- Então, você é a famosa Diana? – disse a tal da Valéria ao me cumprimentar com dois beijinhos no rosto.

Se não bastasse o encontro caloroso, os dois ficaram mais uns cinco minutos filosofando sobre a vida um do outro. Como você está, como você mudou e mais outros blábláblás até o meu ataque de tosse. Cof, cof.

- Senta’í com a gente. – oferecia o educado do meu namorado.

- Não, que isso. Eu não quero incomodar. – dizia Valéria ao perceber minha cara de poucos amigos.

- Mas a gente já pediu o prato...para DOIS...lembra, Pierre?! – relembrei de que se tratava de um jantar a sós.

- Sempre tem espaço para mais um. – insistia Pierre.

Valéria disse que estava esperando uma amiga e, que se ela topasse, se juntaria a nós.

Enquanto isso, rezei para ela não topar.

- Valéria?! Espera’í , Pierre, essa daí não é...

- A Val, minha ex-noiva. – disse ele na maior tranqüilidade.

- Como assim? E você fala nessa calma? E ainda a convida para jantar com a gente? Você pirou né?

- Quem tá pirando é você, Di. Não tem mais nada a ver. A gente já se separou há muito tempo. E outra quem vive de passado é museu, hein!

Antes que eu pudesse retrucar, a tal da Val retornou para a nossa mesa. Para o meu azar, a tal amiga tinha ligado dizendo que não poderia vir. Sendo assim, tive que engolir a ex-noiva na mesa do nosso jantar. Tudo bem se a sessão flashback não tivesse começado.

- Como está a sua mãe, Pe? A mãe dele é adorável né? Ela já fez para você aquele bolo de abacaxi cremoso? Hmmm...uma delícia! Eu adorava.

Bolo de abacaxi? Cremoso? Mas eu nem sabia que ela cozinhava! Quando vou lá é um tal de congelado para cá e para lá?

- E o Petico continua com aquela superstição boba de assistir ao jogo do Corinthians comendo pipoca doce com batata Ruffles? – ria a tal da Val ao relembrar detalhes tão pequenos dos dois.

E assim a noite seguiu. Regada de muitas intimidades reveladas. Algumas que eu desconhecia e outras que só me provavam o quão profunda tinha sido aquela relação. Ainda para ajudar, a bonitona estava sem carro. Daí, o Pierre prestou a solidariedade de deixá-la em casa. Eu, claro, fui o caminho todo muda e com uma tromba de elefante.

- Posso saber o motivo dessa tromba? – perguntou Pierre na porta do meu prédio enquanto tentava me dar um abraço em vão – Já sei. Não vai dizer que ficou com ciúmes da Val né?

- Eu? Ciúmes? Da Val? Que bobagem! – respondi com ironia.

- Então o que é? A comida não estava boa?

- Pierre, meu amor, tem coisas que a gente não precisa responder. Tenha uma boa noite...Petico! – desci do carro e bati a porta o mais forte que pude.

***

Depois de uma semana martelando aquele reencontro, só mesmo uma cerveja gelada no bar do Pedrão com minhas amigas para aliviar a minha tensão.

- Gente, eu me rendo. Como diz Capitão Nascimento, vou pedir para sair. Estou sendo eliminada do BBB. – eu lamentava.

- Do que você tá falando, Di? Qual é o problema agora?

- O problema, Betina, é que a ex-noiva do Pierre ressurgiu das cinzas. Encontramos com ela num restaurante na semana passada e o Pierre teve a pachorra de convidá-la para jantar com a gente. Você acredita? E os dois ainda passaram a noite toda de tititis...

- Ué, mas não é ex? Para quê o estresse? – questionava Betina.

- Muito simples para você que é desencanada né? Como é que eu vou competir com uma mulher que passou oito anos ao lado do meu namorado? A gente só tá junto há um ano e meio e eu nem sabia que a mãe dele cozinhava!!! Você acredita que ela fazia bolo de abacaxi cremoso para tal norinha? A broaca só me dá lasanha congelada!!!

- Mas ela é bonita, Di? – aguçava Lili.

- Ah...é ... é...ela é bem bonitona. Toda cheia de classe. Advogada, bem-sucedida... aposto que o Pierre vai terminar comigo.

- Não exagera, Diana, vai entregar o ouro assim? – incentivava Lili – Ela até pode ser tudo isso, mas é você que está com ele, meu bem.

- Dessa vez, tenho que concordar com a Lili. – dizia Betina.

Por mais conselhos e incentivos que minhas amigas tentassem me dar, nada me tirava aquilo da cabeça. O medo de perder o Pierre para a tal da Valéria me atormentava. E me atormentava mais ainda porque Tim Maia estava certo. Paixão antiga sempre mexe com a gente

Pouco tempo depois que eu conheci o Pierre, eu reencontrei certa vez um antigo affair. O Mauro. A gente tinha ficado juntos um ano, mas foi uma paixão arrebatadora, um amor louco. Praticamente como nove semanas e meia de amor. Mas na ferocidade que veio, foi.

Nos reencontramos num domingo no Parque Villa Lobos. Eu estava lendo um livro embaixo de uma árvore para desestressar e ele corria por lá. Nos surpreendemos com o encontro, fomos almoçar e o Mauro voltou a me ligar.

Naquela época, cheguei até a ficar um pouco balançada. Ele me propôs que voltássemos, tentou me encontrar mais intimamente, mas eu sempre neguei. Mas, confesso, que fiquei bem balançada com aquela situação.

E agora? Será que o Pierre não sentia o mesmo? E se ele resolvesse voltar com a Valéria?

- Sabe quem ligou aqui em casa ontem,filho? A Valéria! Disse que encontrou vocês né? – comentava minha querida sogra durante um almoço familiar regado de lasanha congelada.

- Inclusive, ela comentou que a senhora faz um bolo de abacaxi cremoso de dar água na boca. – alfinetei.

- Nossa, ela lembrou do bolo? Faz tanto tempo que nem lembro mais a receita. – saiu pela culatra.

**

- Di, desde aquele dia do jantar você está diferente. O que está acontecendo? – perguntava Pierre logo após o almoço.

- Nada, Pierre. – eu estava tão irritada que ia ser pior explicar.

- É a Valéria né? Eu sei. Pode falar.

- Se sabe então porque pergunta?

Antes que ele respondesse, a campainha tocou e, para minha indigestão, era a tal da Valéria. A moça resolveu fazer uma visitinha surpresa para a ex-sogrinha que a recebeu de beijinhos e abraços. E só não fez o tal do bolo porque, segundo ela, a visita foi surpresa, mas se tivesse avisado...Ué, será que ela lembrou da receita tão rápido?!

Aquela visita tinha sido o fim da picada. O cúmulo da intimidade. Para não piorar o clima, resolvi ir embora. O Pierre ainda insistiu que eu ficasse, mas inventei uma enxaqueca e fui para casa. Acho que o casal de pombinhos precisava de mais um tempo à sós. Melhor seria me retirar da história de amor.

Claro que fui aos prantos para a casa da Betina que me atendeu assustada. Depois de três copos de água com açúcar, consegui explicar a história para ela.

- Diana, para de ser infantil. Com quem o Pierre está namorando? Se eles terminaram é porque já era mesmo. Para de criar historinhas na sua cabeça.

- Mas, Bê, é páreo duro. Foram oito anos! – eu respondia com os olhos aionda marejados.

- E daí? Foram. Não são mais. Pode tratar de engolir esse choro, colocar uma maquiagem e ir buscar o seu príncipe. – ordenava Betina.

Antes que eu pudesse dar um tapa no visu, a campainha tocou e me assustei ao ver o Pierre parado na porta.

- Como você sabia que eu estava aqui? – disse assustada e enxugando as últimas lágrimas que insistiam em cair dos meus olhos.

- Não foi nada difícil adivinhar. Podemos conversar?

- Gentem, fiquem à vontade, eu estou lá no quarto ok? Qualquer coisa, gritem. – disse Betina nos deixando à sós.

- EU não consigo, Pierre... – diz cabisbaixa com medo de encará-lo nos olhos.

- Não consegue o quê? – perguntava ele com cara de quem não estava entendendo o drama.

- Disputar com essa tal Valéria. É um páreo muito duro. Vocês ficaram juntos por oito anos...ela sabe tudo de você...!!!

- Realmente, Diana, nós ficamos juntos todo esse tempo aí. Quase casamos. Mas acabou. E você sabe muito bem disso. Agora, eu estou com você. É de você que eu gosto. A Valéria já era.

- Mas vocês ainda parecem tão íntimos! E a visita inesperada dela na sua casa?
- Eu nem ia te contar, mas já que chegamos a esse ponto. Há um tempo, ela vem me procurando. Diz que quer voltar. Anda me perseguindo...

- COMO ASSIM??? E VOCÊ NÃO IA ME FALAR NADA?????? – berrei.

- Calma. Hoje foi a gota d’água. Nós conversamos e eu pedi para ela se afastar da minha vida. Eu disse a ela que exijo respeito a você. E que a mulher que ocupa meu coração agora se chama DI-A-NA. Conhece?

Nos olhamos e me joguei como uma criança carente nos braços dele. Daí então, percebi a boba que fui. Parecia adolescente insegura. Os braços do Pierre me reconfortaram e me senti tão importante quanto Michele Obama se sente por ser a primeira-dama dos EUA.

Nem sei e nem quis saber mais da tal da Valéria, mas aprendi que, por mais difícil que seja, quem vive de passado é museu. E me desculpe, Tim, mas paixão antiga nem sempre mexe com a gente.

PAPO DE CALCINHA: Alguma paixão antiga sua ou de algum (a) namorado(a) já mexeu com você?

sábado, outubro 30, 2010

AMADO AMIGO


Por Letícia Vidica

- Diana?!

- Pedro?! – eu respondi assustada com aquele homem que apareceu de repente, acho até que engasguei com o gole de cerveja que eu estava tomando – Acho bom você ter uma boa desculpa para me dar por não ter me avisado que você viria a São Paulo!

- E onde fica a surpresa? – ele respondeu.

Nos abraçamos, num abraço intenso que acho que durou segundos que pareceram minutos que pareceram horas. Acho que foi assim. As meninas, Betina e Lili, me olhavam sem entender nada. Resolvi contextualizá-las da situação, antes que alguma delas fizesse um comentário irônico.

- Meninas, esse é o Pedro. Aquele meu amigo que mora no Rio. Lembram dele? O Pedro é o meu melhor amigo...homem...antes que vocês fiquem com ciúmes.

Convidei-o para se juntar a nossa mesa, mas ele estava com alguns amigos em outra. Ele prometeu me ligar no dia seguinte para fazermos algo e matarmos a saudade.

- Nossa, não imaginava que esse Pedro era tão bonitão. – comentou Lili sem perder a oportunidade.

- Ih, Lili, não é para o seu bico. O Pedro não tem o perfil de canalha. Você não ia gostar dele. – comentei.

- E será que ele seria para o seu bico? – perguntou Betina começando a colocar fogo na fogueira.

- Para de bobagens, Bê. Eu e o Pedro somos apenas bons amigos.

- Será? Não foi o que pareceu depois desse reencontro e do abraço caloroso.

Para variar, a Betina começava a enxergar maldade onde não tinha. Ou será que haveria?

Eu e o Pedro nos conhecemos ainda na barriga de nossas mães, que engravidaram praticamente no mesmo dia. Com ressalva de que eu, apressada como sempre como ele costumava dizer, nasci duas semanas antes do Pedro. Fomos vizinhos até a adolescência, por isso, crescemos juntos. Como eu sempre fui um pouco moleca, eu sempre brincava com o Pedro e os amigos dele e ele me defendia como uma irmã. Apesar de não termos o mesmo sangue, sempre nos consideramos meio irmãos. O Pedro sabe tudo da minha vida e eu da dele. Até hoje, a gente troca confidências.

Quando chegou a época de faculdade, ele prestou vestibular numa faculdade no interior e passou. Teve então de se mudar e depois de formado conseguiu um emprego no Rio de Janeiro onde mora até hoje. Mesmo com a distância, sempre mantemos contato. Trocamos emails, torpedos, ligações quase toda semana para saber como um ou outro está. Realmente, ele não é de se jogar fora, mas a nossa amizade é forte demais para ser estragada e o afeto que sinto por ele não passa de carinho de amigo.

***


No dia seguinte, logo pela manhã, o Pedro apareceu lá em casa e me levou para tomar café da manhã na padaria da esquina de casa.

- Que bom te ver, Pedro. Veio fazer o que em São Paulo?

- Eu tenho um curso aqui essa semana. Daí, resolvi vir no fim de semana para visitar minha família e, claro, rever os amigos especiais.

- Ai, que tudo! Quer dizer que terei uma semana para abusar do meu amiguinho?

- Sou todo seu. Faça de mim o que quiser. – ele disse rindo – Mas como vai a vida? Ainda sozinha?

- Para variar né? Com um aqui outro lá, mas nada fixo. A coisa tá feia, Pedro.

- Eu não me conformo como uma mulher bacana como você não tem ninguém! Esses caras de Sampa andam mole mesmo.

- Olha, quem fala, até parece que não é daqui...

- Sou, mas não estou. Se eu estivesse, você que não se cuidasse não?

Nos olhamos um pouco sem graça por alguns instantes, mas resolvi quebrar o gelo.
- E você? Galinhando muito no Rio?

- Ah, que nada. Eu estava com um rolo com uma gata aí...mas nada sério...e o Pierre?

- Nem me fale dele. Sumiu.

- É outro Zé Mané, né? Mas, deixa eu ficar quieto.

Terminamos de tomar nosso café e, como o Pedro estava com saudades da minha família, telefonei e minha mãe prontamente nos convidou para almoçar lá. Era sempre assim. Quando ele vinha para São Paulo, era uma ofensa não passar na casa dos meus pais.

Ao chegar, minha mãe foi logo dando um abraço apertado nele e o enchendo de perguntas. Dizendo que estava com saudades, que tinha feito o pudim que ele tanto adorava, etc e etc. Era tanto mimo que eu até chegava a ficar com ciúmes. E, quando o Pedro vinha, parecia festa. Minha irmã trazia a sobrinhada que adorava rolar no tapete da sala com ele – uma das qualidades do Pedro é o seu carinho por crianças, acho até que ele seria um ótimo pai. Até mesmo o baladeiro do meu irmão ficava em casa para ouvir as histórias e aventuras cariocas do Pedro.

- Que menino bom, né? Nossa, seria um sonho se você casasse com ele. – delirava minha mãe enquanto lavávamos a louça.

- Tá ficando louca, mãe? Eu e o Pedro somos apenas bons amigos.

- Eu também acho que vocês fariam um belo casal. Você tá é perdendo tempo! – até a songa monga da minha irmã palpitava.

No fim do dia, passamos na casa do Pedro e aproveitei para visitar os pais dele. O bom era que o mimo que ele tinha na minha casa, eu recebia na dele. E até os comentários sobre como seríamos felizes juntos também pintavam por lá.

- Já cansei de dizer pro Pedro para ele vir morar em São Paulo de vez. Seria ótimo não seria, Di? – perguntava a mãe dele, Dona Neusa.

- Ah, eu ia adorar mesmo, Dona Neusa.

- E eu ia adorar ainda mais se vocês dois ficassem juntos...

- Ih, mãe, desiste. Essa daí é jogo duro. – dizia Pedro rindo da minha cara.
Fiquei sem entender o que ele queria dizer com aquele comentário. Mas fiquei com ele martelando na minha cabeça por muitos e muitos dias.

****

- Nossa, Bê, não sei se fico triste ou feliz pelo Pedro ter vindo a São Paulo. – eu desabafava com a Betina enquanto terminávamos de cozinhar para o jantar que eu ia oferecer para o Pedro e alguns amigos dele no meu apartamento. – Desde que ele chegou aqui, todo mundo não para de dizer que somos um casal perfeito. Mas a gente é só amigo!

- Será que isso tudo é só amizade, Diana?

- Lá vem você. Só porque um homem e uma mulher são amigos significa que eles tem que ficar juntos? Que coisa mais careta!

- Esse não é o xis da questão. Seria normal se você não ficasse toda diferente quando está com ele.

- Como assim?!

- Está nos seus olhos, Di. Eles brilham, você fica parecendo uma adolescente boba ao lado dele...parece uma barata tonta...sem contar no olhar de admiração que ele joga sobre você.

- Meninas, cheguei...tô entrando – dizia Pedro que tinha chegado com a sua patota invadindo o meu apê e interrompendo o meu assunto com a Betina.

O jantar correu muito bem, se não fosse a conversa que tive com a Betina engasgada na minha garganta quase me causando indigestão. A Lili estava adorando, tinha até se entendido com um amigo do Pedro. Até mesmo a Betina conversava empolgadíssima com outro amigo dele. Somente eu, parecia um peixe fora d’água tentando digerir aquela história.

Será que eu gostava do Pedro? Será que eu estava enganando a mim mesma ou seria maluquice da cabeça de todo mundo? Ai, meu Deus, não brinca assim comigo não.

- Diana, tá tudo bem? – perguntava Pedro que me flagrou divagando em meus pensamentos na varanda.

- Tá tudo bem sim. – eu dizia tentando disfarçar.

- Não é o que parece.

É incrível como ele me conhecia. Eu nunca conseguia enganá-lo. Ele me conhecia demais.

- Nada não...só estou com dor de cabeça...

- Pode deixar que eu já vou expulsar todo mundo daqui...está ficando tarde mesmo...hora de nenê ir para cama.

- Não, que isso...não estou expulsando ninguém...pelo contrário, fica aqui comigo essa noite.

- Tá me chamando para dormir com você? Que proposta indecente!
Só ele para me fazer rir.

- Só queria conversar mais com você. A gente se vê tão pouco e amanhã mesmo você já volta para o Rio né?

Voltamos para sala e a galera já começava a se despedir. A Lili ia esticar a noite com o amigo do Pedro e a Betina ia pegar uma carona com outro. E o Pedro ia ficar comigo. Arrumamos a bagunça e ficamos jogando conversa fora enquanto lavávamos a louca. Depois de tudo arrumado, tomamos um banho e nos jogamos um em cada sofá degustando uma taça de vinho e colocando o papo em dia.

Era incrível que, quando estávamos juntos, a hora passava e eu nem percebia. Também a gente tinha muito assunto! Mesmo quando éramos vizinhos, assunto nunca foi problema para gente. Já clareava e a nós nem tínhamos dormido ainda. Só nos demos conta de que havíamos passado a noite acordados quando um raio de sol entrou pela janela e veio parar bem no meu olho.

- Que horas são, Pedro? Meu Deus, seis horas!

- Como você fala, hein, Diana? – ele me zuava.

- Eu né? Ai, Pedro, sinto tanto sua falta.

- Vem comigo pro Rio. – ele me disse implorando de joelhos na frente do sofá em que eu estava deitada.

- Para de graça, Pedro! – eu disse sem graça o empurrando para o chão.

- Mas eu não estou brincando...- ele disse me puxando pelo braço e fazendo com que eu caísse sobre ele – adoraria ter você mais pertinho de mim assim.

Nos olhamos por alguns segundos. Nossas bocas a poucos milímetros de distância. Era a primeira vez que ficávamos naquela situação, com ressalva de quando brincávamos de guerra de lama no quintal lá de casa. E era a primeira vez que eu havia ficado com uma vontade louca de agarrá-lo, beijá-lo e ir correndo para o Rio com ele, casar e ter um casal de filhos. Mas, acordei e recuei.

O Pedro resolveu ficar para almoçar e quis dar um de mestre cuca. Cozinhou uma macarronada à moda Pedro Carioca, como ele diz. Depois do almoço, fui obrigada a assistir o jogo do Flamengo, time que ele agora diz ser do coração (mas sabe que nem me importei com isso?), depois assistimos a um desses filmes que cansam de reprisar na tevê a cabo comendo brigadeiro de panelas (detalhe: dividido na mesma colher).
No fim da tarde, daquela tarde maravilhosa, o Pedro insistiu para que eu o levasse até o aeroporto. Segundo ele, não poderia perder mais nenhum segundo ao meu lado. Detalhe: curiosamente ou coincidentemente, eu fui a única a acompanhá-lo no aeroporto, sob insistência suspeita da mãe dele.

- Adorei passar esses dias com você. Tinha me esquecido o quanto são bons os momentos ao seu lado. – ele dizia me abraçando no aeroporto.

- Eu também adorei sua companhia. Você sabe que sinto saudades de você né?

- Se cuida, mocinha. Tô no Rio, mas tô de olho. Ah, e se mudar de idéia...estou te esperando lá no Rio.

Ele me deu um beijo prolongado na testa, mais um abraço forte e partiu. Fiquei igual estátua parada no meio do aeroporto. Naquele momento, minha vontade era embarcar juntinho com ele. Mas, pera’í, Diana, o que estava acontecendo com você?

- Você está apaixonada por ele, amiga. Sempre esteve. – respondia Betina ao meu indagamento, enquanto eu choramingava a partida do Pedro no apartamento dela.

- Será? Realmente, é sempre mágico quando estamos juntos. Mas a nossa amizade é tão verdadeira...eu não quero estragar isso

- Então, deixa rolar...mas se mudar de idéia...já sabe para onde correr né?
Eu bem sabia, mas até agora não arrisquei. Preferi continuar em São Paulo, por enquanto.

PAPO DE CALCINHA: E aí já teve alguma amizade assim? A amizade virou amor ou não?

quinta-feira, outubro 21, 2010

AMOR VIRTUAL


Por Letícia Vidica

- Diana, é impressão minha ou aquela mulher parecendo um espantalho do Mágico de Oz parada no meio do shopping é a Betina?

Nem foi preciso responder a pergunta da Lili. Ao nos aproximarmos do tal espantalho, pudemos confirmar que se tratava da nossa querida amiga.

- Betina? – eu perguntei assustada com a cena.

- Tá fazendo o quê vestida ridícula desse jeito? – engatou Lili.

- O-oi, meninas, tudo bem? Eu posso explicar. – respondeu Betina com cara de criança que é pega no flagra pela mãe fazendo arte – é que eu tenho, ou melhor, tinha um encontro às escuras.

- Encontro o quê? – perguntei.

Acho que esqueci de me dizer que a Betina tinha como uma de suas características manter alguns mistérios e segredos e aquele era mais um deles. Descobri que a Betina adorava conhecer pessoas pela internet e que estava teclando há alguns meses com um carinha, o qual acabara de dar um bolo virtual nela.

- A coisa tá feia mesmo. Nem mesmo pela internet estamos livres de levar um bolo – desabafava Betina tristonha enquanto comíamos um lanche na praça de alimentação.

- Mas você queria o que, Bê? Vestida desse jeito parecendo um espantalho, é claro que o cara não ia se aproximar né?

- Opa, Lili. Menos hein? Não precisa avacalhar. – respondia Betina irritada.

- Mas como era o príncipe cibernético?

- Ah, Di, ele disse que era...

- ... alto, moreno, sarado, solteiro e que adorava praia! – completou Lili

- Como você sabe?! – perguntamos.

- Ai, gente, eu sou macaca velha nesse lance de romance virtual. Eu nunca contei para vocês, mas eu também adoro conhecer pessoas pela internet. Já conheci muita gente. E você acaba de cair no golpe do moreno sarado. Acorda né, Betina, você acha mesmo que caras deuses como esse precisam MESMO da internet para conhecer alguém?

Apesar do diálogo parecer incomum, era real. A Lili acabara de dar uma lição de realidade para a Betina, a senhora da verdade. Aquela declaração também me revelou um segredo da Lili. Minha amiga adorava ter encontros mais picantes na internet. Se é que me entendem! Naquela conversa percebi que o único peixe fora d’água, ou melhor, fora de conexão era eu.

Eu nunca fui muito ligada nesse negócio de conhecer gente na internet. Prefiro a realidade do que o cibernético. Nada melhor do que olho no olho, pele com pele. Além disso, confesso que sempre tive um pouco de medo de quem poderia estar do outro lado da tela.

Até que, em uma noite chuvosa e fria de sexta-feira, eu estava de bobeira em casa e não tinha nenhum programa com as meninas, resolvi entrar na internet. Ninguém interessante no MSN para conversar, nenhum scrap novo no Orkut, nenhum álbum interessante no Facebook para xeretar. Foi aí que meu dilema começou. Fiquei por alguns instantes brigando com minha consciência e com o mouse, até que não resisti e entrei numa sala de bate papo.

Escolhi a que me parecia mais ‘normal’. Daí, então gatinhamanhosa atacou. Em menos de dez minutos online, alguém puxou papo comigo.

Gatinhomanhoso: De onde tc?

Gatinhamanhosa: SP.

Gatinhomanhoso: O q faz aki nessa noite fria?

O assunto que começou meio frio e insonso, logo ficou interessante e quando me dei conta passei quase a noite toda teclando com o tal gatinhomanhoso. Trinta e cinco anos, advogado, alto, moreno, esportista. Foi assim que ele se definiu para mim. Combinamos de nos encontrar no dia seguinte na mesma sala e no mesmo horário. É claro que eu disse que estaria on, mas era só para ser simpática.

Porém, não só no dia seguinte como em todos os outros que se seguiram, eu estava online sempre na mesma sala e por muitas noites a gente teclava. Sem perceber, comecei a me envolver com aquele homem que eu nada sabia.

- Meninas, acho que estou ficando louca. – confessei para minhas amigas.

– Não consigo parar de imaginar como o gatinho manhoso é. Esse negócio tá ficando viciante. Não durmo mais em paz se eu não falo com ele. Se ele não está on, fico triste e sinto saudades. Isso é normal?

- Ih..bem-vinda ao mundo dos amores virtuais. – dizia Betina brindando com um copo.

- E você acha graça? O que eu faço?

- Relaxa, Diana. Marca um encontro com o gato.

- Ai, Lili, eu acho que não tenho coragem.

E por mais alguns dias fiquei brigando com a minha coragem e curiosidade para convidá-lo para um encontro. Mas ele acabou sendo mais rápido e me convidou primeiro. O que eu faria? Aceitava ou não?

- Pára de ser boba, Diana. É claro que você tem que aceitar, mas precisa tomar alguns cuidados – me orientava Betina – Marca com ele em algum local público, em caso dele ser um louco tarado, você grita e todos vão te ouvir. Diz que você vai com uma roupa, mas vai com outra completamente diferente.

- Mas você vai comigo?

Depois de muita insistência, Betina aceitou me acompanhar no encontro e eu aceitei conhecê-lo. Marcamos num shopping do centro da cidade. Ele disse que estaria de jeans e camisa azul e eu de vestido amarelo. Fui de rosa, claro. A Betina ficou sorrateiramente me espionando sentada no banco do shopping. Na hora e local marcado, cheguei. E logo avistei um homem com a roupa que ele me disse no local combinado.

Meu coração acelerou. E agora? Minha vontade era de sair correndo do shopping, mas eu não podia fazer aquilo. Fui me aproximando vagarosamente.

- Alexandre? Gatinho manhoso?

- Diana!!! – ele disse me medindo dos pés a cabeça e me dando um beijo e um abraço.
Ele não era de se jogar fora, mas era completamente diferente do que eu imaginei.

- Poxa, você é bonita mesmo hein?

- Ah, obrigada. – preferi não dizer o mesmo.

Fomos tomar um suco na praça de alimentação, enquanto a Betina nos seguia sorrateiramente. Começamos a conversar sobre nossas vidas, perguntávamos sobre coisas que já tínhamos conversado na internet. A conversa até que fluiu legal, mas a minha ansiedade continuava.

- Achou que eu era um monstro?

- Ai, que isso.

- Pode confessar. Conheço bem esse lance de encontros às escuras.Logo imaginei que você não viria com a roupa que me disse e que também estaria acompanhada.

- Acompanhada? Eu?

- Ou você acha que eu não percebi a sua amiga nos espionando?

Fiquei super sem graça com a declaração. O cara era realmente um expert em encontros virtuais. Isso não me cheirava bem porque para quem tem tantos encontros, alguma coisa errada tem. Acabei desmascarando a Betina que se juntou a nós.

Ao final do encontro, prometemos continuar se falando pela internet e a manter nossos encontros virtuais. E ele se despediu com um beijo na minha boca.

- Nossa, amiga, um gatinho...

- É todo seu.

- Como assim , Di?

- Desanimei.

- Eu não te entendo. Estava aí toda ansiosa para sair com o gatinho manhoso e agora amarela?

- Ah, eu acho que perdeu a graça. Preferia ele no mundo virtual. Me dava mais emoção.

E foi assim que minha iniciação no mundo dos amores virtuais terminou. Percebi que não nasci para isso. Deixo para a Betina que supre sua carência com esse tipo de relacionamento e com a Lili que, às vezes, alivia a tensão pela internet. Eu ainda prefiro os romances reais.

PAPO DE CALCINHA: E você já teve algum amor virtual? Gosta dos romances cibernéticos ou prefere os reais? Conte-nos sua história.

sexta-feira, outubro 08, 2010

MULHER DETETIVE


Por Letícia Vidica

- Diana, você vai ter que me ajudar. – dizia Lili com cara de desesperada entrando como uma loba enfurecida no meu apartamento.

- O que houve dessa vez? – perguntei sabendo que dali viria uma bomba.

- O Luis Otávio está me traindo.

- Grande novidade, né, Lili? – respondi sem espanto por conhecer bem o currículo do Don Juan.

- Dessa vez, é sério. E você vai ter que me ajudar a descobrir quem é a sirigaita.

- Pode me tirando fora dessa, Dona Liliana. Você tá cansada de saber que o Luis Otávio não presta e ainda quer confirmar? Que prova mais você precisa?

Eu bem que tentei, mas quando a Lili encucava com alguma coisa não tinha santo que a fizesse desistir. Ainda mais quando o problema se chamava Luis Otávio. Daí, lá vinha ela com uma idéia mirabolante de Sherlock Holmes. E aquela era mais uma. Como Sherlock não trabalha sozinho, eu quase sempre me metia de sua assistente.

- E o que você quer que eu faça?

- Vamos seguir o Luis Otávio. Ficar de tocaia para pegá-lo com a boca na botija.

- Tem certeza de que quer ver isso?

****

Ao contrário da Lili, eu nunca fui muito encucada. Dificilmente desconfiava de algo e, se desconfiava, não ia muito a fundo na história. Não sou muito a mulher detetive e me nego a ficar seguindo ou investigando a vida de um homem. Acho que se a desconfiança bate é porque o relacionamento não vale mais a pena.

Porém, teorias à parte, eu sou mulher. E nem sempre consigo bancar a durona. Foi o que aconteceu uma vez quando eu namorava o Pierre.

- Meninas, tô com a pulga atrás da orelha. Acho que o Pierre tá me traindo. – confessei às minhas amigas numa sexta ensolarada no bar do Pedrão.

- De onde você tirou essa idéia maluca? O Pierre devia ser canonizado. – dizia Betina.

- Não se esqueça que ele é homem, Betina. – emendava nossa Sherlock Holmes – Pode contar comigo pro que precisar. Acho mesmo que você tem que tirar essa história a limpo.

- Lá vem você botando pilha, Lili. Mas Diana, porque desconfiar dele agora? A essa altura do campeonato?

Era o que eu estava me perguntando há muito tempo. Qual seria o motivo da minha desconfiança. O Pierre sempre foi um namorado presente, nunca me deu motivos para que eu desconfiasse dele, mas de uns tempos para cá eu estava achando algumas atitudes dele muito suspeitas.

A primeira delas é que, outro dia, enquanto ele tomava banho o celular dele tocou. A gente nunca escondeu nada um do outro, mas sempre respeitamos a privacidade alheia. Ou seja, ele nunca fuçou no meu celular e nem eu no dele. Até aquela chamada. A curiosidade foi maior e fui olhar no visor e vi que uma tal de Lia era quem ligava.
Lia? O Pierre nunca me falou de nenhuma Lia? Seria uma amiga? Mas que amiga ligaria tão tarde da noite de um sábado? Preferi não atender, mas não ia ficar assim.

- Seu celular estava berrando aí. – disse sutilmente enquanto ele se enxugava. – Era uma tal de Lia. Quem é essa Lia? Eu conheço?

- Você atendeu meu celular? – perguntou nervoso.

- Calma! Para quê a raiva? Você sabe muito bem que eu não atendo o seu celular, mas não estou proibida a olhar o visor. E não foge do assunto. Quem é Lia, Pierre?

- É uma amiga do trabalho.

- E, por um acaso, vocês tem alguma reunião a essa hora da noite de um sábado?!

- Para de besteira, Diana. Eu lá sei o que ela quer comigo? Segunda-feira eu resolvo isso. Agora deita aqui e vamos relaxar um pouco.

Percebi que aquela tinha sido uma estratégia para mudar de assunto, mas a tal de Lia não tinha descido muito bem.

O segundo motivo foi que o Pierre começou a sair tarde do serviço quase todas as sextas-feiras, anulando ou atrasando nossos encontros. Incrível como toda sexta, tinha reunião.

- Di, não vai ficar brava? Não vou poder dormir na sua casa hoje. A gente tá enrolado num projeto aqui e não sei que horas vou sair.

- De novo?! Que projeto interminável é esse? A tal da Lia também vai te ajudar? – perguntei bufando.

- Diana, sem comentários. Nos vemos amanhã.

Quanto mais ele fugia do assunto, mais eu desconfiava dele. Aquilo estava me martirizando. Eu tinha que tirar aquela história a limpo. E foi o que eu fiz. Numa dessas sextas-feiras de reunião do Pierre, resolvi saber que tipo de reunião ele andava tendo. Levei minhas amigas a tiracolo e ficamos de tocaia na frente do trabalho dele.

- Diana, isso é loucura. Vamos embora. – Betina tentava me convencer.

- Eu não saio daqui enquanto não tirar essa história a limpo.

- Você está certíssima, amiga. Tem que dar o bote. – Lili me apoiava e estava louca para ver o circo pegar fogo.

Meia-hora depois, Pierre apareceu na porta do prédio acompanhado de uma loira que eu nunca vi mais oxigenada. Sem pensar e impulsivamente, abri a porta do carro e fui correndo na direção dos dois.

- Diana?! O que você está fazendo aqui?

- Ah agora está assustado? Pode ir me explicando tudo. Então é com essa mocréia que você tá se reunindo?

- Diana, vamos embora daqui. Não é nada do que você está pensando. Sem barracos, por favor.

- Ah porquê? Tá com medo é?

- Diana, a Lia...

- Ah então essa daí é a tal da Lia?

Antes que a loira se explicasse, um carro estacionou na nossa frente e alguém a chamou.

- Bem, Pierre, eu vou indo. Meu marido já chegou. Me desculpe pelo mal entendido.
Marido? Como assim, a loira era casada? Mas podia ser amante do meu namorado! Não acredito que paguei um mico desses!

- Satisfeita agora com o papelão? Não esperava isso de você.

- Pierre....Pierre...volta aqui.

Ele entrou no carro dele e me deixou sozinha feito uma palhaça, como eu me sentia, chorando no meio da rua. Rapidamente, as meninas vieram me socorrer e me levaram para casa. No caminho, expliquei toda a história para elas que tentaram me animar. Mas eu tinha certeza que depois daquele mico, tinha perdido não só a vergonha como o Pierre também.

***

Como eu estava dizendo, não tinha adiantado brecar a Lili nem mesmo depois de fazê-la relembrar da minha história. Lá fomos nós ficar de tocaia na porta da casa do Otávio.

- Lili, vamos embora. Ele não vai chegar. Olha que horas são!

- Aposto que ele tá no motel com alguma sirigaita, Diana. Eu conheço o meu eleitorado.

- Se conhece, nem deveria vir comprovar. Você já sabe da resposta.
De repente, fomos surpreendidas por uma sirene de polícia. Os policiais nos questionaram o que estávamos fazendo rondando a casa e que um vizinho tinha notado nossa presença suspeita e telefonado para eles. Final da história: fomos parar na delegacia. Passamos a noite no xadrez. Tudo culpa da loucura da Lili de querer bancar a detetive.

- Viu o que você fez? E agora quem vai nos tirar daqui? – eu bufava com a Lili que só chorava.

- Calma, meninas. Não foi por acaso que vocês conheceram uma amiga advogada. – dizia Betina que chegara para nos tirar do sufoco.

- Nunca mais me meta nessas suas maluquices, Lili!

- Desculpa, Di. Eu não imaginava que isso aconteceria.

- Ah não? Pois da próxima vez você vai bancar a detetive sozinha. Presa por causa do Luis Otávio, é só o que me faltava.

Fiquei brava com a Lili por uns dias, mas depois a perdoei. Afinal, amigo é para essas coisas, mas prometi a mim mesma que jamais bancaria a Sherlock novamente.

***

No fim da história, a Lili nunca soube se o Luis Otávio a traía e eu ...

...tentava me reconciliar com o Pierre. Fui novamente na porta do trabalho dele com a bandeira branca da paz.

- Podemos conversar? – perguntei gentilmente.

Ele me olhou com cara de poucos amigos. Despediu-se da Lia que mais uma vez descera com ele. Até eu a cumprimentei e pedi desculpas pelo mal entendido.

- Diana, o que deu em você? Mal te reconheci.

- Me desculpe, Pierre. Eu não sei o que deu em mim. Mas eu fiquei possessa de desconfiança e com medo de te perder.

- E eu te dei algum motivo para isso?

- Você não, mas eu criei motivos na minha cabeça.

- Desconfiar de mim. Que bobagem! E ainda mais com a Lia. Se quer saber, ela é bem bonita e atraente sim. Mas eu não a trocaria por ela. Prefiro você. Sem contar que a Dona Lia é muito bem casada viu?

Eu fiquei com cara de tacho, ele riu de mim e no fim nos beijamos. Respirei aliviada por não perdê-lo. Pelo menos, não foi por aquilo que ele saiu da minha vida.

PAPO DE CALCINHA: E VOCÊ JÁ BANCOU A MULHER DETETIVE? SE DEU BEM OU MAL EM SUA INVESTIGAÇÃO?

quinta-feira, setembro 30, 2010

SOLTEIRO SEM DINHEIRO


Por Letícia Vidica

Ficar solteira tem seu lado bom, mas vamos combinar que também tem algumas desvantagens. Não só emocionais como financeiras. Ficar solteira é sinônimo de prejuízo – pelo menos para nós mulheres (aos homens se aplica a regra inversa).

- Vamos para onde hoje, meninas? – perguntava Lili empolgadíssima e pronta para balada.

- Eu só estou indo do quarto para sala – eu respondia ao checar minha conta bancária no internet banking.

- Ah, gente, vamos ficar em casa?!

- Eu, pelo menos, vou, Lili. Tô lisa. Mal tenho dinheiro para comprar o pão de amanhã.

- E o cartão de crédito?

- Tá estourado.

- E o limite do banco?

- Já estou no limite do limite. Nessas horas até sinto saudades do Pierre...

- Lá vem você metendo homem na conversa – resmungava Betina que ouvia nossa conversa enquanto fumava na varanda.

- É, sério, gente. Quando eu estava com o Pierre, eu mal abria a minha carteira. Ele ficava furiosíssimo se eu quisesse pagar a conta... e o pior é que a besta aqui insistia em dividir...direitos iguais. Que besteira! Devia era ter feito uma poupança para quando ele me desse um pé na bunda.

- Não, exagera, Diana. Eu pago para você. Depois você me acerta. – dizia Lili, a endinheirada da turma. Eu até me esquecia que para ela dinheiro não era problema.

Uma das coisas boas é ter amigas. Elas sempre te ajudam quando você está na pindaíba. E, o melhor de tudo, não te cobram nunca. É uma dívida eterna. Uma mão lavando a outra.

Apesar de eu ter amigas para me socorrer nos desesperos financeiros, nem sempre me sinto à vontade de recorrer a esse meio. Ás vezes, prefiro inventar outra desculpa a sempre ter que pedir emprestado. “Ah, hoje eu não estou afim”, “Estou com dor de cabeças”, “Já tinha outro compromisso” e assim vai.

Ficar solteira e na caça de um príncipe é investimento e prejuízo dobrado. A gente gasta para arrumar o cabelo e fazer as unhas no salão para ficar bonita para conseguir um peixe. A gente gasta para comprar aquele vestido que você namorou a semana inteira e vai combinar perfeitamente com a balada. A gente gasta para abastecer o carro, para pagar o estacionamento, para pagar a entrada da balada, para pagar as bebidas, os aperitivos...e em alguns casos até o motel do fim de noite. Não há conta bancária que agüente.

- Definitivamente, vou dar um tempo nas baladas. Olha só esse rombo na minha conta e no cartão de crédito?! – eu choramingava ao abrir o meu extrato bancário e a fatura do cartão– Como eu pude gastar tanto assim?

- Realmente, acho que a gente tem saído demais. Eu também vou ter que dar uma maneirada ainda mais agora que estou querendo ir para Europa nas férias. – planejava Betina.

- E eu? Vou sair sozinha? Ah, não. Eu protesto.

- Protesta o quê, Lili? E você vai pagar as nossas contas, por um acaso? – gritava Betina inconformada.

- Ai, que saudades do Pierre...que tempo bom que não volta nunca mais.

- Pelo menos, você tem um tempo bom para se lembrar. Pior sou eu que só pego pé rapado e sempre divido a conta. Se bem, que eu me nego a ser bancada. – dizia Betina

- Por isso, fica aí choramingando que não tem dinheiro para viajar para Europa. Acho que vou ligar pro Pierre...

- Falando nisso, o Otávio foi lá em casa ontem...me pedir uma grana emprestada...

- Até quando você vai ficar bancando aquele pé rapado, Lili? Você, uma donzela, rica de berço... ao invés de arrumar um herdeiro vai ficar bancando assalariado?!

Esse tipo de discussão entre amor e dinheiro quase sempre era longa. Mesmo sendo amigas, nossa situação financeira é bem diferente. A Lili não tem noção do que é dinheiro. Ela nunca precisou correr atrás dele, ela tem ele! A Betina é dona do próprio negócio, ótima administradora, mas às vezes passa por uma maré brava. E eu, assalariada, dependo do meu mísero salário no fim do mês que nunca dá para pagar todas as contas que despencam na minha cabeça. Por isso, essa minha insistência em não ficar sozinha e ter alguém RICO, RICO, tá me ouvindo Deus?

***

- Que tal um filminho e uma pipoquinha hoje, meninas? – dizia Betina com uma voz angelical nada típica.

- Eu acho ótimo. – concordei prontamente sem ter que assumir que não tinha dinheiro para mais uma balada.

- Ah, tá bom. – incrivelmente até Lili concordou com o programinha caseiro.

Quando isso acontecia, uma coisa era certa. Estávamos duras. Ninguém admitia muito, mas todas nós sabíamos que estávamos na mesma lama. E era bem legal porque a gente curtia juntas e nos divertíamos da mesma forma.

Essa é mais uma vantagem. Ter amigas que também ficam na pindaíba como você e até nisso são unidas.

- Nossa, eu ia adorar uma pizza e uma cervejinha agora hein? – dizia Lili com água na boca.

- Ai, meninas, a pipoca tá uma delícia...- disfarçava Betina.

- Eu também acho. – concordava.

- Já sei...estamos lisas né? – questionava Lili.

Imediatamente nos olhávamos e ríamos admitindo a nossa dureza. Daí, a gente juntava nossas moedinhas, víamos quem tinha mais limite no cartão e no banco. E com a grana da vaquinha a gente comprava uns aperitivos para comer e ficarmos numa boa.

Mesmo curtindo esses momentos, admito que minha conta continua no vermelho e, se você souber de alguém para me deixar no azul, pede para passar lá em casa...antes que eu tenha que ligar para o Pierre.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ TAMBÉM ACHA QUE FICAR SOLTEIRO (A) É SINAL DE PREJUÍZO? COMO FAZ PARA DRIBLAR A 'GASTANÇA'?

segunda-feira, setembro 06, 2010

TÔ CARENTE


Por Letícia Vidica

- Ih, Diana, que cara é essa? – perguntava Lili ao me ver vestida de moleton, meia, chinelo e deitada no meu sofá numa noite quente de sábado.

- Tô carente! – eu confessava.

Eu estava passando por mais uma daquelas fases de carência afetiva incuráveis. Daquelas bem bravas que nem um brigadeiro de panela e o filme Titanic estavam curando.

- Ninguém me ama, ninguém me quer.

- Mas achei que você ainda estava com aquele gatinho...

- Que nada! Sumiu. Como todos os outros. Já olhei na minha agenda do celular e vi que estou super desatualizada, nenhum número novo para chamar de meu...

- Amiga, alto astral. Pode tomar um banho, colocar um roupinha e vamos para balada. Não existe lugar melhor para curar essa carência.

Para a Lili era na balada que tudo se resolvia. Ela costuma dizer que a noite é a cura de todos os males. E, naquela noite, ela acreditava que seria a cura do meu mal. E eu também.

Em menos de duas horas, estávamos na fila da balada mais badalada da cidade vestidas para matar.

- Diana, dá para mudar essa cara de bosta? Como você quer arrumar alguém com essa cara de velório?

- Ai, Lili, eu não tô legal. Acho que eu vou embora.

- Nada disso! – dizia Lili me puxando pelo braço – olha só quantos gatinhos! Relaxa e confia em mim.

Resolvi confiar. Entramos e logo nos encostamos no bar para beber algo. Lili foi logo pedindo a sua tradicional vodka e eu ainda olhava indecisa o que eu pediria.

- Um duplo para mim e um daqueles coquetéis especiais para gatinha aqui. – dizia o homem ao meu lado. – Se importa?

- É claro que ela não se importa – respondia Lili por mim.

- Prazer, Luis Gustavo. E qual o nome dessa princesa?

- Ela se chama Diana. – mais uma vez ela respondia para mim. Eu estava tão desanimada e desatenta que mal conseguia ver o gato que começava a me paquerar.

Ele estendeu a mão e eu continuei estática até a Lili me dar um beliscão e eu sair daquela transe.

- Ops, desculpe, é que eu não estou muito bem hoje.

- E posso saber por que uma gata linda dessas está triste?

Minha vontade era de responder que era porque ninguém me queria, que eu seria eternamente uma encalhada e que eu estava carente. Mas acho que de nada adiantaria me abrir para ele.

- Uns probleminhas, mas nada demais. Não quero estragar a sua noite.

- Estragar? Te conhecer só melhorou a minha noite.

Diante da minha carência exacerbada, resolvi ficar com o cara a noite toda e escutando aqueles xavecos baratos de balada. Eu estava precisando de uma massagem no ego né? Ficamos, demos uns beijinhos e amassos. Ele até sugeriu que eu fosse para o apartamento dele, mas não era o que eu queria.

- Como assim? Um Deus de ébano te oferece uma noite de amor e você recusa? – perguntava Lili abismada com a minha negativa enquanto voltávamos para casa.

- Vai devagar com o andor, Lili! Não é porque eu dei uns beijinhos no cara que sou obrigada a dar para ele!!!

- Depois reclama que está carente...

- E estou mesmo. E não vai ser na noite que eu vou me curar. Poxa, Lili. Estou cansada de sair, pegar um monte de caras, ouvir xavecos furados e não dar em nada. É tudo muito vazio. Me sinto uma boneca inflável! Não é isso que eu quero. Quero mais. – desabafei.

E eu realmente estava querendo mais. A noitada só tinha piorado a minha carência. Eu queria ter alguém para me envolver, alguém para dividir e somar comigo e não apenas um macho para me tirar do cio. Aquela balada só me fez perceber o quanto estava difícil encontrar um cara legal. E será que eu encontraria?

Passei o domingo bem down, assistindo filmes românticos melosos e a relembrar os bons momentos que vivi com o Pierre. Nesses momentos de carência, a gente quase sempre acaba lembrando de relacionamentos passados e a saudade começa a bater. E
sempre faço uma bobagem quando isso acontece. Foi o que eu fiz. Liguei pro Pierre.

- Oi, Diana, tudo bem? Quanto tempo!

- Pois é...liguei só para...só para...saber se você está bem. – mentira! Eu tinha ligado para implorar para ele voltar para mim ou para, pelo menos, me tirar daquela depressão afetiva profunda.

- Eu estou ótimo. E você? Fazendo o que de bom?

Adiantaria se eu dissesse que estava desesperada, carente e chororô?

- Ah, estou em casa de bobeira. Tá afim de bater um papo?

Combinamos de nos encontrar em uma hora e fomos ao bar do Pedrão beber umas cervejas. Eu apostava que aquele encontro me tiraria da carência profunda.

- Bom te ver, Di. Quais são as novidades?

- Novidades? – o que eu diria? – trabalhando bastante, saindo...

- Aposto que tá namorando também.

- Eu? Namorando? Que isso! Tô sem cabeça para isso agora. – mais uma daquelas mentiras femininas que sempre colam. Eu estava louca para namorar e ele podia ser o meu namorado né? – E você?

- Eu estou conhecendo uma pessoa aí...

Como assim? O Pierre estava com outra?

- Poxa, que legal. Espero que seja uma mulher bacana. Você merece!

Aquela revelação tinha me afundado ainda mais na minha carência. Percebi que o Pierre só me queria como amiga e que eu não mais fazia parte dos planos dele. Além disso, percebi a besteira que eu tinha feito ao sair com ele. O Pierre tinha conhecido uma garota e parecia bem empolgado com ela.

- Bê, eu não sei mais o que eu faço...até o Pierre já se arranjou. Já fui para balada, saí com o ex...estou quase me matando e essa carência não passa.

- Diana, você tem que ter paciência.

- Até quando, amiga? Será que eu nunca vou encontrar alguém que me mereça?
Adoraria que a Betina tivesse me respondido, mas era mais uma daquelas perguntas que só Deus saberia me dizer, mas até agora ele não disse. Enquanto isso, eu aguardo um sinal. Será que vai demorar demais?

PAPO DE CALCINHA: Qual é a sua receita para os momentos de carência?

quinta-feira, agosto 19, 2010

OU ELA OU EU


Por Letícia Vidica

Nunca faça essa pergunta a um homem comprometido. Ainda mais se você estiver com ele, mas não for o compromisso dele. Apesar de saber disso, ter lido milhões de livros de auto-ajuda feminina, eu me esqueci de tudo naquele momento e foi o que perguntei ao Alan naquela noite fria de quinta-feira no sofá do meu apartamento.

- Ou ela ou eu. Não agüento mais essa situação. Você tem que decidir.

Antes que eu diga o que ele me respondeu, vou explicar a vocês quem é o Alan.

Por mais que eu saiba o fim da história, eu insisto em cometer algumas burrices mais de uma vez e uma delas é se me envolver com homens comprometidos. É problema na certa, mas parece que eles exalam um cheiro mais gostoso sabe?

O Alan trabalha comigo. Ele é do departamento financeiro. Eu nunca tinha achado a menor graça nele. Para mim, era apenas mais um homem comprometido da minha empresa. Compromisso que o brilho da sua aliança não deixava que eu esquecesse.

Num desses happy hours lá da agência, depois de muito beber, comer frango a passarinho e falar mal do chefe, lembrei que estava tarde e que meu carro estava na mecânica. Educadamente, aceitei uma carona do Alan. Não vi nenhum problema nisso já que ele morava a duas quadras da minha casa.

- Nossa, a hora passou e eu nem vi. Duas da manhã já. Sua namorada não reclama não? – eu perguntava enquanto ele me levava para casa.

- Ela não liga muito não. Acho que já se acostumou.

- Aposto que ela já deve ter te ligado mil vezes...

- Ela não é de pegar muito no pé não. Sou um bom homem. – ele disse com sorriso irônico e lançando um olhar 43 para mim.

Fiquei um pouco nervosa e preferi encerrar o assunto, mas ele insistiu.

- Você não acha que eu sou um bom moço?

- Ah, não sei. Eu mal te conheço, Alan. – desbaratinei.

- Não conhece porque não quer. – mais uma vez, ele me olhou ao estilo 43.

Por sorte ou azar, o carro parou na frente do prédio.

- Obrigada pela carona.

- Vai descer assim? Não mereço nada pelo sacrifício?

- Alan, vai para casa que teu problema é cachaça. Sua mulher deve estar te esperando... para de bobagem!

- Quem disse que é bobagem? Eu não sou homem de brincadeira.

Ele me puxou pelo braço e me roubou um beijo. A minha primeira vontade era de ter virado um tapa na cara dele, mas logo mudei de idéia ao sentir melhor o sabor daquele beijo e provar da pegada que ele tinha. Quem diria hein, Alan?


***

- Você não aprende não, Diana? Outro cara comprometido? –preciso dizer que a Betina estava me recriminando?

- Bê, foi ele quem me beijou. Eu ia fazer o quê?

- Eu só espero que você pare por aí porque a senhorita bem sabe o fim da história né?

- Pois é.Vamos sair hoje.

- O QUÊ???? – berrou Betina indignada com a minha aceitação.

Depois daquele beijo, não conseguia mais olhar para o Alan na empresa. E quando eu olhava, era um olhar diferente. Parecia que da noite pro dia ele tinha ficado mais interessante.

Eu tentava evitá-lo ao máximo para que ninguém percebesse, mas ele me procurava insistentemente. Me mandava milhões de emails pedindo para sair comigo, pedindo meu telefone, ficava me paquerando na hora do almoço...gente, eu sou de carne e osso né? Uma hora eu ia ter que ceder. E cedi.

E lá estava eu bebendo uma cerveja num bar qualquer com o Alan, o homem compromisso. Mas era apenas uma saída de amigos ou, pelo menos, era o que tinha que ter sido.

- Eu não sei o que eu estou fazendo aqui com você, Alan! – eu disse tentando dar uma de durona. – Quero deixar bem claro que eu só saí com você por que... por que...

- Porque você está tão afim de mim quanto eu de você. – dizia o Alan se gabando do seu poder sedutor – Pára de bancar a durona, Diana. Vamos curtir o momento.

- Não é uma questão de ser durona. E o que eu faço com essa aliança no seu dedo? Você namora!!!

Descobri que ele não só namorava há quatro anos, como tinha planos de se casar com ela. Eu não podia amarrar o meu burro ali, mas, infelizmente, eu amarrei.

Aquela foi apenas a primeira de muitas outras saídas que tivemos. De um rolo casual, eu me transformei literalmente na outra. Ele passava mais tempo no meu apartamento do que na casa da namorada. Isso fazia até com que eu pensasse que ela era amante e eu a namorada. Mas sempre caía na real quando falávamos sobre nossa relação.

- Você vai me enrolar até quando hein, Alan? – perguntava enquanto acariciava seus sedosos cabelos deitados no meu colo.

- Como assim enrolar? Eu não estou aqui todinho para você, minha flor?– disse me roubando um beijo que sempre me derretia.

- Você sempre diz isso, Alan. Eu falo sério. Estou cansada de ouvir suas promessas de que vai largar sua namorada, de que o relacionamento não está legal, mas você nunca cumpre...

- Eu não te prometi que vou terminar? Confia em mim, gata.

O pior é que eu sempre confiava e assim ele ia me enrolando. Já eram quase seis meses de enrolação. E a cada dia eu estava mais e mais apaixonada por ele. A única coisa que me crucificava era o fato dele não ser só meu. Era pensar que ele beijava a boca dela, que ele dizia que a amava, que ele estava com ela quando não estava comigo...

- Aposto que o Alan está na casa daquela piranha – eu dizia andando de um lado ao outro da minha sala aguardando ansiosa por uma ligação dele – Ele disse que ia aparecer!

- Diana, calma. Você está careca de saber como é. Se você se sujeitou a ser a outra então agüenta... – falava Betina tentando me trazer à realidade.

- Ai, Be, estou cansada de tudo isso. Estou cansada das promessas do Alan. Já faz seis meses que estamos juntos e até agora ele só fala e nunca termina com ela.

- Diana, pára de ser adolescente. Parece até que você não sabe que um homem dificilmente vai trocar um relacionamento de anos por uma aventura de seis meses.

- Mas ele prometeu, Be!

- E você vai acreditar?

Aquela era a resposta que eu não tinha com muita certeza. Eu não acreditava nas promessas do Alan sobre sua separação, mas eu me enganava fingindo acreditar só para não perdê-lo. Isso me condenava. O tormento era tanto que eu acabei resolvendo dar um xeque mate.


Numa quinta-feira quando o Alan foi para a minha casa depois do trabalho...

- O que houve, gata...está tão fria...vem aqui para um chamego.

- Hoje não tem chamego, Alan. Hoje tem DR. Ou ela ou eu. Não agüento mais essa situação. Você tem que decidir.

- Como assim? – perguntou com cara de assustado.

- Como assim, digo eu. Faz seis meses que estamos juntos e é sempre a mesma história. Vai terminar, terminar e nada. Vai me enrolar até quando? Chega! Ou ela ou eu.

- Diana, eu não posso tomar uma decisão assim. Eu já te disse que eu vou acabar.

- Disse e não fez. Então, por favor, até você se decidir não me procure mais.

E foi assim que o Alan saiu por aquela porta e saiu da minha vida. Eu confesso que tinha esperanças de que ele retornasse, de que ele terminasse o relacionamento com a namorada, mas não foi o que aconteceu. Ele não era homem suficiente para arriscar. Sofri muito, mas resolvi seguir em frente.

Depois do nosso fim, a nossa relação ficou um pouco abalada. Quase nem nos olhávamos no trabalho. Acho que a gente se evitava não por ódio, mas por medo da chama se acender novamente.

Até que um dia, cheguei na agência e o pessoal estava fazendo uma comemoração.

- Nossa o que houve? Ganhamos um novo cliente? – perguntei sem saber de nada.

- Não, Di. O Alan vai ser papai! – dizia a secretária.

Fiquei tonta, engoli o choro e tentei disfarçar o máximo que pude. Estendi minhas mãos para as dele e dei os parabéns. Ali encerrava a nossa história. Se eu tinha alguma esperança em que ele mudasse de idéia e optasse por mim, ela tinha morrido ali mesmo.

- Desculpe não ter te falado nada... sei que é chato você saber assim de repente – dizia Alan cabisbaixo no fumódromo da agência.

- Você não tem que se desculpar. Você fez uma escolha.

- Foi você quem escolheu Diana. Eu não queria terminar com você.

- E também não queria terminar com ela. Assuma que você nunca teria coragem de jogar tudo pro alto e ficar comigo né? É muito mais fácil ir levando no banho maria.

- Eu estava confuso.

- Todo homem quando não sabe o que quer fala que está confuso. Mas eu estava bem decidida. Se você não me quer, tem quem queira. Seja feliz com a sua namorada e com o seu filho ok?

- Diana, Diana... volta aqui!

Dei as costas para não ter que ouvir o mesmo repertório e para não cair na mesma ladainha. Eu ainda estava bem envolvida com ele, mas não dava mais para fazê-lo optar. Aquela gravidez era a opção maior. Prometi a mim mesma que não mais me envolveria com homens comprometidos ou, pelo menos, não ousaria mais perguntar “Ou ela ou eu”.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ DEU UM XEQUE-MATE EM ALGUM HOMEM COMPROMETIDO E SE DEU MAL? SE VOCÊ FOI A ESCOLHIDA, CONTE A FÓRMULA DE SUCESSO PARA GENTE.

terça-feira, agosto 10, 2010

GAROTO CHICLETE


Por Letícia Vidica

- Oi, coração! Bom dia! Te liguei só para saber se minha bonequinha dormiu bem.

É, isso mesmo que você está pensando. A "coração" e a "bonequinha" do outro lado da linha era eu.

- Oi, Gustavo, tudo bem? Eu estou ótima sim. Nas últimas duas horas que você me deixou sozinha, nada aconteceu. Pode ficar bem tranqüilo.

Fazia menos de duas horas que o Gustavo tinha deixado o meu apartamento. A cama mal esfriara e ele já estava me ligando para dizer que estava morrendo de saudades. Nem me assustei porque isso fazia parte de um ritual que eu estava tentando me acostumar.

Eu conheci o Gustavo numa festa de aniversário de uma amiga de trabalho. Conversamos um pouco, dividimos algumas latas de cerveja e tragadas de cigarro, ele me ofereceu uma carona, eu aceitei, trocamos telefones, saímos uma vez, ficamos e ele não larga mais do meu pé.

Não que ele seja um cara desinteressante, mas o problema é que o Gustavo é do tipo meloso. O típico Garoto Chiclete. Um grude na minha vida. Me liga de manhã para dizer "bom dia", de tarde "para dizer boa tarde" e de noite "para dizer boa noite". Se não bastasse isso, ainda aparece de surpresa quase todos os dias lá em casa e tem uma preocupação excessiva comigo. Sem contar que fica me chamando de nomes no diminutivo de forma babaca e idiota. É coraçãozinho para cá, lindinha para lá e assim vai.

- E porque você não dá um pé na bunda dele, Diana?

- Ai, Be, eu não sei. Ainda tenho esperança de que ele vai mudar. Ele é um cara legal, beija bem, faz amor gostoso, o que me irrita é essa pegação no meu pé.

- Falando no chicletinho, olha ele vindo aí...

Ao olhar para trás, me deparei com Gustavo entrando pela porta principal do bar do Pedrão. Eu confesso que tinha odiado a surpresa. Eu havia dito para ele que eu ia sair com as meninas.

- Oi, gatinha. Gostou da surpresa? - dizia Gustavo me dando um beijo na mão, outro na minha testa e sentando já agarrado ao meu lado - Desculpa atrapalhar, Betina, mas eu não consigo ficar mais de um minuto longe do meu coraçãozinho.

- Que isso, fica à vontade! - dizia Betina tomando um gole de chope para conter o riso.

Ficamos por cerca de uma hora jogando conversa fora, mas eu já estava me sentindo sufocada com aquele cuidado todo, aquelas babações para cima de mim e resolvi fingir que estava cansada e que queria ir para casa.

- Ah, docinho, tá cansadinha tá? Eu te levo para casa - dizia Gustavo alisando a mão em meu rosto e praticamente me pegando no colo.

Tentei convencê-lo de que a Betina poderia me levar para casa, que eu não queria tirá-lo do caminho, mas não adiantou. Ele insistiu em me levar para casa.

Chegando à porta do meu prédio, dei um beijo nele e fui saindo do carro, mas ele me puxou pelo braço e me beijou novamente.

- Não consigo ficar um minuto sem beijar essa boquinha linda, sabia?

Mal ele sabia que estava odiando aquela beijação toda.

- Não vai me deixar subir, gatinha? Adoraria fazer uma massagenzinha nos seus pezinhos.

- Me desculpe, Gu, estou morrendo de dor de cabeça.

- Ai, meu neném tá dodói tá? – dizia me apertando a bochecha da maneira que eu mais odiava – mas tudo bem! Vou deixar meu coraçãozinho nanar e amanhã cedinho estou aqui.

- Gu, não precisa vir cedo não. Eu vou ao shopping amanhã. Preciso fazer umas comprinhas. – eu disse com a esperança de que ele desistisse.

Inútil tentativa a minha. No dia seguinte, praticamente antes do sol raiar, Gustavo já estava de prontidão na minha casa.

- Não acredito que o Gustavo vai fazer compras com a gente! – questionava Lili enquanto eu pegava a minha bolsa.

- Eu tentei de tudo, amiga. Mas ele não se tocou. O negócio é encarar agora.

E lá fomos nós três fazer compras no shopping. Eu nunca imaginei o quão era horrível ir às compras acompanhada e pior ainda era ir acompanhada de alguém que te tratava como um poodle e opinava em tudo que você queria comprar. Se não bastasse escolher até o seu absorvente.

- Adorei essa calcinha, amore. Acho que você devia comprar. – dizia Gustavo enquanto escolhia calcinhas e soutiens para mim.

Na tentativa de tentar acabar logo com aquele martírio, reduzi as minhas habituais quatro horas de compras no shopping a uma hora e meia.

- Gu, se você quiser, pode ir para casa agora. Amei a sua companhia, mas eu e a Lili temos hora marcada no salão do Beto.

- Faço questão de acompanhar as damas, amorzinho.

- Não precisa se incomodar, Gustavo – dizia Lili com olhos suplicantes para mim como quem pede socorro.

E não adiantou de nada suplicar. Ele nos levou até o salão de cabeleireiro e ficou sentadinho esperando a gente fazer unhas, depilação, escova, hidratação. Detalhe: tirando o Beto, que é meio homem, ele era o único naquele ambiente.

- Meninas, quem é aquele bonitão ali? – perguntava o meu cabeleireiro enquanto fazia uma chapinha no meu cabelo.

- Ih, Beto, pode tirar o olho que aquele ali é o novo peguete da Diana – respondia ironicamente Lili enquanto esperava secar as unhas.

- Chiclete, você quer dizer né, Lili?

- Ih, pelo jeito, a coisa tá feia hein? Achei o máximo o bonitão ficar te esperando. Que romântico!

- Não vejo nada de romântico nisso, Beto. Desde que a gente começou a sair, eu não consigo mais respirar. Não tenho um minuto de paz. Se eu espirro, ele diz saúde! – desabafava.

Passamos o restante do dia a falar sobre a melação do Gustavo e mesmo com a demora rotineira de um salão de belezas, o Gu não arredou o pé.

- Nossa, como o meu coração está uma gata! – elogiava o resultado da espera.

- Te fiz esperar demais né? Você deve estar cansado. Não quer ir para casa tomar um banho?

- Na sua ou na minha?

Mais uma tentativa em vão na esperança de eliminar o Gustavo do meu dia. Ele não só tomou banho na minha casa, como preparou um jantarzinho para nós dois, fez massagens nos meus pés e me fez ninar. Tudo perfeito se eu não estivesse de saco cheio de tanta perfeição.

- Eu não agüento mais, Betina! – desabafava no telefone com a minha amiga num valioso minuto de paz.

- Dá um pé na bunda dele.

- Se fosse tão fácil, eu já teria dado. O Gustavo não me deixa pensar, não me deixa respirar...agora mesmo...aproveitei que ele foi na padaria e liguei para você.

- Acho que isso já passou dos limites né? Ele já é bem crescidinho para entender que a coraçãozinho dele não tá mais afim.

- E você ainda consegue ironizar?

Minha amiga estava certa. Eu ia ter que driblar todo aquele mel e dizer com minha amargura de que não dava mais. Foi o que tentei durante todo aquele dia, mas os carinhos e as lambeções do Gustavo não me deixavam falar. No fim do dia, quando finalmente ele resolveu ir para casa dele, eu disse.

- Não precisa mais voltar, Gu. – pronto, falei.

- Como assim, coraçãozinho? – perguntava com olhos tristonhos.

- Pelo amor de Deus, não me chama de coraçãozinho. Eu não sou o seu coraçãozinho.

- O problema é esse? Tudo bem, gatinha, eu não te chamo mais assim.

- O problema não É só esse! Você me sufoca, Gustavo. Eu adoro ser mimada sim, mas toda hora tá difícil. Você não me deixa respirar. Desde que você entrou na minha vida, eu não sei o que é ter um minuto de privacidade.

- Me desculpa, co...digo, Diana. Eu só queria te fazer feliz.

- Eu agradeço, mas eu jamais serei feliz assim.

Gustavo me olhou com olhos de cão tristonho – confesso que fiquei com dó dele e me senti uma bruxa – mas era necessário. Se eu não fosse dura, jamais ele iria entender.

E ele realmente demorou a entender. Resolveu mandar flores, bombons e ursos de pelúcia para reconciliar. Mais uma prova de que se eu perdoasse, a melação continuaria. Resolvi ignorar os presentes e as ligações insistentes. E resolvi também que não quero mais saber de chiclete na minha vida. Se for Bubballoo então, estou saindo fora.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ SE RELACIONOU COM ALGUM HOMEM GRUDENTO? COMO FEZ PARA QUE ELE SAÍSSE DO SEU PÉ?