sexta-feira, dezembro 12, 2014

A AMIGA DELE


POR LETÍCIA VIDICA

- Desculpe o atraso, Pê. Tive uma reunião interminável e ainda peguei um trânsito do cão. – cheguei toda esbaforida no bar que o Pedro tinha marcado de me encontrar, o lugar que ele escolheu para me contar sobre a tal surpresa incrível que ele tinha para mim. Confesso que passei a tarde toda quase me suicidando de tanta ansiedade em saber o que poderia ser.

- Di, essa é a Paulinha, lembra dela? – disse Pedro apontando para a mulher G-A-T-A de morrer que estava sentada ao lado dele, vulgo, meu namorado.

Paulinha?! Fiquei hipnotizada e olhando para aquela mulher num mix de ódio e inveja daquele sorriso de comercial de pasta de dente e daquele cabelo de comercial de shampoo. De qual planeta tinha saído aquele avião? Eu bem que me esforcei mas a minha memória parecia não me ajudar. Eu não me lembrava e nunca tinha visto aquela mulher mais linda.

- A Paula, aquela minha amiga do colégio, lembra?

Opa! Paula Bolão? A gordinha espinhuda que estudou da primeira até a oitava série com o Pedro e que tinha um amor platônico por ele e que sempre arrumava confusão comigo quando vinha fazer trabalho de escola na casa dele?! Onde foi que eu parei no tempo e ela se transformou em Paula, a Espetacular?

- Ah, então, essa era a surpresa?! – confesso que perguntei um pouco decepcionada para o Pedro. Eu esperava tudo menos que a Paulinha fosse a tal surpresa. Para mim, ela estava me cheirando mais a uma bomba. – Oi, Paula, quanto tempo!!! Como você está diferente... – respondi educadamente, tentando me recompor do susto e sentando ao lado do Pedro para não desmaiar (só não sei se de ódio ou de inveja).

- Diferente é educação da sua parte, Diana. Pode ser sincera... eu era horrível mesmo!!! Emagreci um pouquinho ne?

A danada, além de magra e linda, ainda era bem humorada ou, pelo menos, ficou porque eu só me lembrava daquela gordinha espinhuda de boca cerrada e cara fechada. Quem diria que agora eu sentiria raiva daquele sorriso!!

- O Pedro tinha me dito que você estava morando na França... – emendei uma conversa para tentar mudar o rumo daquele sorriso e parecer um pouco interessada pela história dela. Confesso que umas boas goladas de chope me ajudaram a relaxar.

- Eu ainda moro lá, mas vim passar uma temporada aqui no Brasil para resolver uns assuntos profissionais. – dizia Paulinha rindo e piscando descaradamente para Pedro. Aquele código eu não tinha entendido. Qual foi a parte que eu perdi? O que o Pedro tinha a ver com os assuntos profissionais dela?! Será que tinha mais surpresa pela frente?

- E vai ficar muito tempo por aqui? – desculpa, gente, mas foi incontrolável. Eu tinha que saber por quanto tempo eu teria que aguentar aquele despautério de mulher no meio da minha relação.

****

- ...vocês precisavam ver a intimidade dela com o Pedro. Trocando confidências de infância descaradamente na minha frente e o Pedro parecia um bebê babão olhando para ela. – eu desabafava no bar do Pedrão com minhas amigas. – concluindo a conversa com um gole de caipirinha de saquê.

- Acho que você está exagerando, Diana. Eles são amigos. Não se veem há muito tempo... – era Lili quem tentava me acalmar. Muito estranho por sinal. Queria ver se fosse como Tavinho. Aposto que a Paula, ex-bolão já estaria sem dentes e sem sorriso.

- Não se esqueça que a Diana também era amiga e de infância do Pedro.

- Muito bem lembrado e esse é o meu medo, Betina. Tudo que eu menos precisava e desejava neste momento é ter concorrência.

- Também não seja precipitada, Diana. Menos. Tudo bem você ficar de olhos abertos mas até agora a talzinha aí não te deu motivo nenhum para você já ir jogando a tolha assim. Segura seu bofe mas sossega o facho. – mais uma vez, o lado budista da Lili falava por ela. Nem eu estava reconhecendo a minha amiga.

- Então, acho bom se preparar porque o Pedro tá vindo aí... – completava Betina olhando para a porta do bar.

Quase caí da cadeira quando vi o Pedro entrando no bar com a Paulinha, ex-bolão a tiracolo. E ele nem tinha me avisado. E de onde eles estavam vindo?

- Oi, meninas! Oi, meu amor. – era Pedro quem me cumprimentava. – Desculpe invadir o espaço de vocês, mas a Paula queria sair para conhecer a noite e nada melhor do que uma reunião de mulheres ne? Resolvi invadir o clubinho de vocês.

- Fiquem à vontade. Muito prazer, Paula. – cumprimentava Betina cordialmente mas dando uma conferida na garota dos pés a cabeça. Aposto que ela ia mudar rapidinho de ideia sobre aquele assunto.

- Oi, meninas. Desculpem vir aqui assim, mas o Pedro insistiu... – como a educação daquela mulher me irritava.

- Que isso. Fique à vontade. Se é amiga do Pedro, é nossa amiga também. – essa era Lili paz e amor quem fazia as honras.

A minha vontade era esganar o Pedro por tê-la trazido no meu ambiente, por ter passado o dia todo sem me dar um sinal de vida e de repente aparecer com essa musa assim de paraquedas.
Tentei quebrar o gelo e bancar a namorada educada. Passamos a noite conversando e ouvindo as fantásticas histórias do mundo perfeito de Paula em Paris. Pode ser coisa da minha cabeça mas o Pedro parecia um bobo babão. Tudo que ela falava ele ria, elogiava...

- .. muita coisa mudou por aqui mesmo. Eu mudei, ne, Pe? Nossa, como eu enchia o saco do Pedro quando éramos crianças. Não sei como ele me aguentava. E, você, Diana? Quem diria... fiquei muito feliz em saber de você e do Pedro. Foi uma surpresa para mim.

Aposto que ela queria estar no meu lugar. Surpresa é você estar aqui. Isso sim.

- Amiga, tenho que concordar com você. Ela é linda!!! E magra e educada e super simpática.

- Lili, desse jeito, você não está ajudando. – respondi enquanto fofocávamos no banheiro.

- E como me irrita ouvir as histórias do mundo perfeito dela. Você viu como o Pedro fica babando?!

- Seja esperta, Diana. Você precisa se unir ao inimigo. Não adianta fazer guerrinha. – dizia Betina com sensatez.

Resolvi seguir o conselho da minha guru e ser o mais agradável possível com a mulher perfeita. Até então, parecia que estava funcionando e a noite fluiu bem.

***

- Bom dia, meu amor. – eu disse cheia de amor pra dar e enchendo o Pedro de beijinhos enquanto entrava no apartamento dele para ajudá-lo a preparar o churrasco de boas vindas da bolinha preferida dele. Eu achava um pouco demais tudo aquilo, mas ele insistiu tanto que eu cedi.

Ao entrar no apartamento, me reparei com alguns itens um pouco fora de ordem. Percebi que a louça estava toda lavada e, se minha memória ainda não estava prestes a me trair, aquele não era dia da faxineira. Depois, vi uma mala rosa no corredor. Pelo que eu saiba, rosa ainda não era a cor preferida do Pedro. E, para completar a minha total surpresa, a Paula Bolão saiu lindamente do banheiro com andar de Gisele Budchen, cabelos ao vento e sorriso irritantemente Colgate.

- Paula?! Oi? Achei que eu seria a primeira a chegar ... – questionei estranhando o fato dela estar lá.

- Na verdade, não cheguei. – respondeu sem graça – Eu fiquei. O Pedro me convidou para ficar aqui... espero que não se incomode.

- Relaxa, Paulinha. A Diana é de boa. – respondeu Pedro me abraçando pelas costas e beijando minha nuca.

Apesar da minha vontade de socar a cara dele e arrancar os cabelos dela junto com aquele sorriso irritante, eu respirei e apenas sorri. Resolvi deixar mais essa de lado.

- A vida é mesmo engraçada não é mesmo? Aqui estamos nós três aqui de novo. Lembro da gente em pé de guerra na infância... – era Paulinha quem divagava sobre o nosso passado infantil enquanto descascávamos a batata da salada.

- Não diria que foi bem uma guerra... coisa de criança.

- Pode ser sincera, Diana. Eu bem sei que eu era uma pentelha mesmo. Não fica brava comigo, mas eu morria de ciúmes do Pedro. Queria ele só para mim. – essa era a parte sincera da Paula que resolveu falar.

- Jura?! – engasguei – Nunca percebi isso. – mentira!! Melhor tirar a faca da minha mão antes que ela tenha vontade própria.

- Parem de fofocar que o assunto chegou, hein? – esse era o Pedro que chegava do supermercado com as bebidas, acompanhado da Lili, Betina e Tavinho a tiracolo.

Fiquei aliviada deles interromperem aquela sessão divã, mas também incomodada com aquela declaração super sincera. Será que Paulinha ainda não tinha superado esse passado infantil? Dizem que traumas infantis não superados são as maiores causas das frustrações adultas. Será que ela voltou para tentar ter o Pedro só para ela?!

- Diana, não pira. Já te falei. A Paulinha é um amor de pessoa e isso foi coisa de criança. – essa era Lili que já tinha sido enfeitiçada pelo sorriso Colgate da ex-Bolão.

- Como eu não vou pirar?! Esse espetáculo de mulher se desbanca da França para cá, cai de paraquedas no apartamento do meu namorado que não me disse uma palavra sobre a nova hóspede e ainda vem com esse papo de que queria o Pedro só para ela?! – bufei e bebi um copo de cerveja numa golada só.

- Querem alguma ajuda, meninas? – essa era Paulinha que parecia ter ouvido a conversa para aparecer assim tão repentinamente.

- Nossa, você não morre mais. Estávamos falando de você? – essa era Betina com ares de quem ia bancar a detetive.

- Espero que bem ... – riu Paulinha com seus dentes brancos.

- Muito bem...afinal, o que pode ter de ruim na França.

- Ah, meninas, a França não é toda essa maravilha não. Já estou ficando cansada das baguetes. – riu

- Vai voltar então? – era Betina quem dava o xeque mate.

- Olha, eu nem ia falar nada, mas acho que posso confiar em vocês. Estou querendo voltar sim. Eu e o Pedro estamos tentando iniciar um negócio juntos. Unir a empresa dele com a minha e montarmos uma filial aqui no Brasil. Foram esses negócios que eu vim resolver aqui. Se tudo der certo, estarei de volta em breve. Amém! – sorriu aliviada.

Para tudo que eu quero descer. Qual foi a parte dessa novelinha que eu perdi? Por que o Pedro não me disse nada sobre isso? Eu não estava gostando nadinha desse suspense todo do Pedro e da sua amiguinha de infância.

- O Pedro comentou comigo, mas me pediu segredo. – respondi falsamente. Eu não podia bancar a namorada desinformada. Devorei mais um copo de cerveja.

- Podemos interromper o clube da Luluzinha? – era Tavinho e Pedro que entravam na cozinha.

- Minha orelha já estava ardendo. – brincou Pedro e tentando me abraçar mas me afastei.

- Que bom!! A gente estava aqui celebrando a sua sociedade com a Paulinha. Temos que brindar não? – levantei o copo.

Pedro me olhou sem graça com aquela carinha que só ele sabe fazer quando faz besteira e eu dei o meu melhor sorriso sarcástico de quem diz “me aguarde. Vamos conversar mais tarde”.

- Vamos botar fogo naquela churrasqueira, gente? – essa era Lili que tinha percebido o climão e tentou quebrar o gelo.

***

Tentei fazer de tudo para não estragar a tarde agradável que o Pedro tinha proporcionado para a Paula, mas minha cara sempre me trai quando algo não vai bem. Eu não conseguia rir das gracinhas do Pedro, nem retribuir os beijinhos dele e nem me sentir confortável com seus abraços. E a cada troca de confidências sobre a velha infância meu coração apertava, o ódio aumentava. Sem contar a cada sorriso Colgate e cabelos esvoaçantes da Paulinha.

Num momento de desatenção de todos, resolvi ir para o quarto para recompor as ideias e respirar. Nem percebi o tempo passar e fui flagrada pelo Pedro que tinha ido ao quarto me procurar.

- Meu amor, o que você está fazendo sozinha aí? – perguntava ele ao me ver deitada na cama.

- Nada. Acho que bebi demais. Eu já volto para lá. – menti.

- Vim te buscar. Vamos? As meninas estão querendo ir embora e estão te procurando. – ele esticou as mãos para me levantar e tentou me beijar.

- Agora não, Pedro. – respondi friamente.

- O que está acontecendo, Diana? Eu te conheço. O que eu fiz dessa vez? – realmente ele me conhecia.

- Com licença, pombinhos. Tá tudo bem? – essa era Betina que parecia ter percebido que o circo ia pegar fogo e veio tentar apagar as chamas.

- Tudo ótimo, Be. Vim trocar de blusa. – olhei profundamente nos olhos do Pedro e saí com a Betina. Ele ficou parado me olhando com cara de quem não tinha entendido nada.

Com muito sufoco, banquei a lady e disfarcei o meu mau humor até o churrasco acabar. Eu queria ir para casa junto com as meninas, mas Pedro insistiu que eu ficasse. Eu queria fugir daquele assunto naquela noite, mas ele não ia aceitar ficar sem uma explicação.

- E aí, vai me dizer o que eu fiz ou vou ter que te torturar a noite toda? – perguntava ele ao meu lado no sofá da sala enquanto Paula tomava banho.

- Achei que a gente tinha um relacionamento aberto e sincero. Esperava tudo de você, menos ter que descobrir pela boca da Paulinha que ela é a sua mais nova sócia e quem sabe, até mesmo, o motivo do seu retorno para o Brasil.

- Não seja ridícula, Diana. Não faz drama!

- Drama? Você esconde de mim que está tentando montar uma empresa com a Paulinha ... coloca ela dentro do seu apartamento sem que eu saiba e eu que estou sendo ridícula?! – perguntei inconformada. O que mais me irritava no Pedro era o jeito dele achar que tudo era normal e que eu sempre tenho que ser compreensiva com tudo.

- Eu ia te contar, mas a Paula me pediu segredo. Afinal, o negócio é dela. Eu não fechei nada com ela ainda. Estamos apenas conversando. Ela veio ao Brasil para me fazer a proposta.

- Aposto que a proposta vem com vestido de noiva... – ironizei.

- Ei, Diana!! – Pedro me sacudia – Calma. A Paula é apenas minha amiga... você não está com ciúmes dela ne? A gente brincava de lutinha quando criança...esqueceu? Paulinha Bolao!

- Eu também era sua amiga, Pedro. Amiga de maternidade e olha onde estou hoje.

- Diana, para com isso, por favor. – insistia Pedro.

- Você sabia que ela tinha ciúmes de você e confessou que te queria só para ela? Foi o que ela me confessou hoje lá na cozinha. Será que tudo isso passou mesmo?

- Acho melhor eu ir para um hotel. Não quero atrapalhar vocês. – essa era Paulinha quem flagrava a nossa discussão de relacionamento. Aposto que ela tinha ouvido tudo por detrás da porta.

- Que isso, Paula. Para de bobeira. Você é super bem vinda!!! – disse Pedro cordial como sempre e tentando disfarçar que estava tudo bem entre a gente.

- Pode ficar, Paula. Eu já estou indo. – respondi pegando minha bolsa.

- Você não vai dormir aqui? – perguntava Pedro com voz e cara de cachorro sem dono.

- Não. Eu vou para casa. Depois, a gente conversa. Boa noite, Paula.

Virei as costas, abri a porta do apartamento e fui embora. Eu podia estar cometendo a maior loucura da minha vida. Talvez tivesse deixado o Pedro de bandeja e cereja na boca para a gulosa da Paulinha, ex-bolão devorar, mas eu não podia ficar. Precisava de um tempo para digerir toda aquela história e para fazer a digestão da minha raiva....

(((CONTINUA)))

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ É DO TIPO QUE TEM CIÚMES DAS AMIZADES DELE OU LEVA NUMA BOA? JÁ TEVE ALGUMA HISTÓRIA ENVOLVENDO AMIGAS PARA NOS CONTAR?

terça-feira, dezembro 09, 2014

...PORQUE EU GOSTO DE VOCÊ


POR LETÍCIA VIDICA

Acordei incomodada com a luz de notificação do meu celular que piscava no escuro sem parar. Mais parecia uma luz de balada. Ainda sonolenta, abri levemente um olho, desbloqueei o celular e vi que era uma mensagem no whatsapp. Ao abrir a mensagem todo meu leve mau humor matutino se foi por água abaixo. Era uma mensagem de bom dia do Pedro acompanhada de carinhas, corações e florzinhas.

Suspirei. Suspirei e suspirei novamente.

Acho que eu nunca tinha parado para pensar o quanto aquelas duas palavrinhas tinham poder e mudavam o meu dia. Ainda mais se elas viessem do Pedro. Passei anos da minha vida recebendo as mesmas palavras do meu pai e da minha mãe, mas elas não tinham o mesmo poder. Depois passei mais um bocado de anos, acordando sozinha e dando eu mesma bom dia para a minha sala, para a geladeira e, até mesmo, para os pássaros que nunca pousaram na minha varanda.

Realmente, eu teria um bom dia e, desde que o Pedro retornou para a minha vida, o bom dia é realmente um bom dia.

****

A correria do nosso cotidiano nem sempre permite que eu e o Pedro nos falemos o dia todo. E eu também não gosto de ficar pentelhando, mas de um jeito ou de outro, ele sempre se faz presente no meu dia.

A sintonia é tanta que, as vezes, chego a achar que ele instalou uma câmera no meu escritório. Como ele consegue adivinhar os momentos que mais preciso de um afeto e me manda uma mensagem para dizer boa tarde ou que está com saudades ou simplesmente um Oi?!
Acho que nem ele sabe que essa é a melhor terapia que eu posso ter.

****

- Oi, linda, tudo bem? Pode falar ou te incomodo?

- Você nunca me incomoda. Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? – eu perguntava estranhando aquela ligação do Pedro que parecia fora de hora ou que não fazia parte do nosso cotidiano.
- Tá tudo bem. Só liguei para saber como você estava e dizer que estou com saudades.

Diz se isso não é para quebrar as pernas de qualquer mulher? Tem hora que acho que ele não existe.

- Dona Diana, dona Dianaaaaa....

Me assustei com o berro da minha secretária tentando me trazer de volta para Terra.

- Ahn, desculpe, o que foi? – me recompus.

- A senhora está bem? Aconteceu alguma coisa com Seu Pedro?

- Não, não...tá tudo ótimo. Ele só ligou para saber se eu estou bem. Fofo ne?

- A senhora tem sorte viu? Quem dera o meu Matias fosse assim. Eu posso morrer aqui e ele nem vai sentir falta. – desabafou com ares de mágoa a minha secretária que tinha um relacionamento não assumido de décadas.

- Nossa, mas se a coisa está tão ruim assim... por que você está com ele ainda?

- Por que eu gosto dele, dona Diana. – respondeu prontamente – E a senhora? Por que a senhora gosta do Pedro?

Uau! Bang, bang. Acho que minha terapeuta baixou na minha secretária. Pois é...por que eu gosto do Pedro? Me dei conta que a nossa história foi tão cheia de altos e baixos que eu nunca parei para me fazer essa pergunta. “Pedro, por que eu gosto de você?”

Aquele foi o mantra do meu dia, da minha tarde, da minha noite, das minhas madrugadas e do resto da semana. Fiquei tentando encontrar grandes momentos, grandes acontecimentos que me fizeram gostar dele. Achei vários claro! Mas nada suficientemente convincente para que eu afirmasse que era aquilo que me fazia gostar do Pedro.

- Tá no mundo da lua hoje, Diana? – perguntava Betina em mais um dos nossos clubes da Luluzinha na casa dela.

- Ai, gente, to incomodada com uma coisa. Essa semana, a Laura, minha secretária me perguntou o por quê eu gosto do Pedro... e eu estou tentando achar a resposta até então.

- Ihhh, já vi tudo. Diana e mais uma crise paranoica.

- Não é uma crise, Betina, mas é uma pergunta que eu nunca me fiz. A gente está junto há tanto tempo, já passamos por tantas juntos, mas eu nunca parei e me perguntei...”Diana, por que você gosta do Pedro?”. Tem que ter uma resposta. Eu tenho que encontrar!!! É uma questão de honra...

- Você não pode apenas gostar dele e ponto? Tem que ter uma explicação para tudo?

- Claro, Betina. Eu não dedicaria os meus dias, o meu tempo, o melhor de mim para alguém que eu não sei por que eu gosto.

- Talvez não tenha um motivo tão especial assim... seja isso e ponto.

- Concordo com a Betina, Di. Gosta e pronto. Olha o meu caso... o Tavinho é um safado, só me arruma confusão... mas eu gosto dele mesmo assim.

- Você gosta da confusão que ele traz para a sua vida, Lili. Isso sim.

- Pode ser, Betina, mas é o que me faz gostar dele.

- Viu só? Todo mundo tem um motivo para gostar de alguém. Eu tenho que ter um e eu vou encontrar.

Seguimos a noite filosofando e discutindo os nossos vários motivos para gostar ou não de alguém. Enquanto isso, os meus neurônios lutavam Muay Thay para chegar a uma conclusão.

Obviamente, a noite foi um tormento para mim. Eu tinha que sair daquela confusão mental de gostar por quê , por quê gostar se não eu ia pirar. Resolvi que se eu não achasse um motivo, talvez fosse melhor dar um xeque mate em tudo isso.

Acordei com o barulho da campainha. Levantei sonolenta, tropeçando no ar e fui abrir. Lá estava parado o motivo da minha confusão mental, Pedro.

- Resolvi trazer o bom dia pessoalmente – disse ele me beijando carinhosamente e cheio de amor para dar até me derrubar no sofá e me deixar sem folego.

- Uau!!! Não estava esperando por isso. Mas que horas são? Você não tinha que estar no trabalho? E eu também? – perguntei retornando para a Terra depois de alguns minutos na lua.

- Deveria, mas não vou. Hoje vamos tirar o dia para nós dois. O que acha? Ficar aqui juntinhos, sem fazer nada ou tudo o que você quiser...

- Mas, mas... não é muita loucura?

- Qual a graça da vida sem uma loucurazinha ne?

- Pedro, por que você gosta de mim? – soltei a pergunta assim de repente.

Ele me olhou com cara de quem não tinha entendido nada ou de quem se preparava para iniciar uma discussão de relação.

- Mas por que essa pergunta agora? Te fiz algo que você não gostou? Ta tudo bem?

- Calma! Tá tudo bem sim... eu só queria saber... a gente tá junto há tanto tempo, tantas coisas aconteceram e eu parei para pensar que eu acho que não sei porque você gosta de mim. Queria saber.

- Gosto de você porque é você. – disse ele me dando mais um beijo de novela.

- Só isso?! – perguntei um pouco desapontada, confesso.

- E precisa de motivo maior? – disse ele levantado as sobrancelhas e com aquele ar de quem lança mais uma pergunta enigmática no ar.

Eureca! Elementar, meu caro Pedro. Sem saber o Pedro me ajudara a encontrar a resposta para a minha pergunta. Gosto do Pedro não pelas grandes surpresas, pelos beijos cinematográficos ou pelas transas de filme pornô e nem pelas flores que ele já me deu. Gosto do Pedro pelo simples, pela simplicidade da nossa relação.

Gosto do Pedro pelo seu companheirismo, pela sua parceria, pela sua sintonia, pelo seu bom dia, pelas suas ligações inesperadas no meio do dia, pelas mensagens enviadas no momento em que estou pensando nele, pelo sorriso bobo, pelas piadas sem graça, pelo abraço na hora de dormir, pela sua ausência que me deixa louca e intrigada... por ele ser quem ele é e sem motivo maior. Gosto porque gosto. Simples assim.


PAPO DE CALCINHA: E VOCÊ, POR QUE GOSTA DELE (A)? JÁ SE FEZ ESSA PERGUNTA? CONTE OS MOTIVOS PARA GENTE.

terça-feira, setembro 30, 2014

OPERAÇÃO FAROFA


POR LETÍCIA VIDICA

- Tem certeza que vocês não querem que eu vá com meu carro? – era Betina quem perguntava pela enésima vez enquanto esperávamos a Madame Lili sair do quarto para pegarmos a estrada.

- Não se preocupe, Betina. Meu carro está zero bala. Levei para revisão na semana passada – esse era Tavinho, o nosso motorista da vez que tinha a missão de nos conduzir até a casa de praia da tia de um amigo dele (resumo: um programa mico à vista). – Lili, Liliiii...vamos logo !!

- Liliana, quantos dias você pretende ficar nessa praia? Não era só um final de semana, gente? – me assustei com a quantidade de malas que a Lili trazia para sala.

- Ai, Di, estou levando só o básico... nada demais. – respondia ela com a maior naturalidade e sem culpa alguma.

- Se isso é o básico, acho melhor a gente repensar na proposta da Betina de irmos também com o carro dela. Só o seu básico já ocupou todo o carro do Luis Otávio.

Depois de um arranca rabo básico entre o casal por conta da quantidade de malas, Lili conseguiu se convencer e reduzir as três malas para duas e nos apertamos no carro do Tavinho rumo ao nosso final de semana na praia.

A grande ideia de ir para praia surgiu da Lili que convenceu a gente que seria divertido. Eu tentei convencer o Pedro, mas ele estava atolado de trabalho e preferiu ficar em casa adiantando o serviço. Daí, a minha missão (quase) impossível foi a de convencer a Betina que ela ainda tinha idade para esses programas de índio e que sem ela não teria graça(claro que joguei com todas as cartas que pude – uma delas era sobre quem ficaria comigo enquanto o casal estaria brigando ou se atracando em algum matagal).

Nós não fazíamos muita ideia para onde estávamos indo, só sabíamos que era na casa de praia da tia de um amigo do Tavinho. Tiro no escuro total. Mas lá vou eu com meu espirito aventureiro ne?

****

O primeiro mico da noite foi que pegamos um transito do cão para chegar na estrada. Parecia que toda a cidade tinha resolvido ir pra praia naquele final de semana. E olha que nem era véspera de feriado e muito menos dia de pagamento.
Imagina o conforto: apertadas disputando espaço com as malas da Lili!

E, se não bastasse o congestionamento...

- Que cheiro de queimado é esse? – perguntei ao sentir um odor diferente que parecia sair do carro do Tavinho.

- Acho que é do seu carro, Tavinho. – concordava Lili.

Dito e feito. O carro do Tavinho ferveu no meio da estrada. Resultado: três belas mocas ajudando a dar um tranco no carro, empurrando ele no meio da estrada até o acostamento, aguardando por mais de três horas a chegada de um guincho do seguro e com um medo danado de ser assaltada no meio da estrada. Isso é ou não é divertido?

- Quem foi o gênio que fez a revisão no seu carro, Tavinho? – era Lili, ou melhor, Liliana Bittencourt quem cruzava os braços e dava ares de que a baiana estava baixando nela.

- Foi um camarada meu, Lili. – respondia com tom de poucos amigos.

- Mais um daqueles seus amigos idiotas que tirou diploma por correspondência?! Você não disse que estava tudo certo com esse museu que você chama de carro? Custava ter aceitado a carona da Betina? - ...e blablabla, seguidos de troca de palavras nada carinhosas, chutes e pontapés. E, claro, tinha sobrado para mim e a Betina apartarmos a briga.

- Podem parar com essa palhaçada agora!! Não adianta lamentar. Está feito. Agora é torcer para esse guincho chegar logo. – eu colocava um ponto final no barraco.

Falando em guincho, Deus ouviu nossas preces e ele chegou. Tivemos que seguir viagem dentro do carro do Tavinho em cima da caçamba do guincho. Detalhe que o guincho só pode nos levar até a entrada da estrada que dava acesso a praia porque senão corria o risco de encalhar. Enquanto o Tavinho tentava qualquer sinal de comunicação com uma pessoa que estivesse na casa, aguardamos embaixo da neblina até o sol começar a raiar.

- Gente, eu falei que essa viagem ia ser mico. Convite do Tavinho, estamos indo na casa sei lá de quem no meio do nada... só podia dar merda. O que eu não faço por vocês? – era Betina quem bufava acendendo o vigésimo cigarro.

- Desculpa, meninas. Eu só coloco vocês em confusão ne? Prometo recompensá-las quando a gente chegar na praia.

- Se a gente chegar né, Lili. To começando a desconfiar que essa casa nem existe.

- Calma, gente, vai dar tudo certo. Afinal, emoção e aventura faz parte da viagem ne? Uhu!! – essa ridícula era eu tentando motivar a galera.

Mais alguns minutos intermináveis depois e um carro surgiu para nos resgatar. Era o Diogo, o dono da casa. Nos enfiamos dentro do carro dele e seguimos por mais outros intermináveis minutos até chegarmos na casa que ficava, literalmente, no meio de uma mata e do nada. Um show à parte de pernilongos.

- Gente, fiquem à vontade. A casa é de vocês. Podem se ajeitar onde quiserem ok? – esse era Diogo tentando ser simpático.

- Isso é a casa? – era Betina quem cochichava no meu ouvido.

O que em nossa imaginação tratava de uma super mansão de praia, na verdade, era uma daquelas casas velhas de alguma tia gorda que comprou na década de 80 e que nunca mais foi visitar sabe? Mas que o sobrinho bicho grilo se apossou como seu templo de paz interior e de local isolado e seguro para chamar os amigos para uma festança nos finais de semana. A super casa se resumia a uma sala, um quarto e um único banheiro. Isso mesmo. Um único banheiro. Pensa se a Lili, a rainha da vaidade quase não trucidou o Tavinho por causa disso?

Tudo estaria certo se essa enooorme casa estivesse disponível apenas pra gente. Como chegamos cedo, a maioria ainda estava dormindo e outros começavam a retornar da noitada. Era gente pelo ladrão. Logo nos entreolhamos desesperadas sem saber onde se acomodar. Gentilmente, o dono da casa nos cedeu o quarto que mais parecia um quarto de albergue coletivo pela quantidade de mulheres e malas que estavam lá. Depois de desviarmos dos milhares de colchões no chão, achamos um cantinho para gente.

- Diz que isso é um pesadelo e não está acontecendo ne? Estou me sentindo uma adolescente em um albergue de quinta categoria.

- Calma, Betina, o negócio agora é relaxar. Pensa que amanhã a gente já vai embora. Bora pra praia que a gente ganha mais.

- Diana, olha só quem eu encontrei perdido aqui na casa? – essa era Lili com voz de quem já tinha tomado uma caipirinha pra relaxar.

- William?! – me assustei. Era só o que faltava encontrar ex-peguete nesse final de semana mico.

- Oi, gata. Que bom te ver. – esse era William que lançava o seu sorriso encantador e me dava um beijo apertado e molhado entre a minha orelha e a minha nuca. Ai, meu Deus, eu sou uma mulher fiel. Não me deixe cair em tentação. O Pedro não merece!!!

- Nossa, você?! - me desvencilhei daquele beijo antes que meu corpo ousasse tremer mais. Incrivel como esse William mexia com a minha libido. – Bem, a gente se encontra ne? Vamos pra praia meninas?

- Opa, praia! Acho melhor eu acompanhar as mocinhas. Vai ser mais seguro.

Não tive como falar não e saímos em caravana até a praia que ficava há algumas léguas de distância.

- Pelo amor de Deus, desse jeito a gente vai chegar na África. Cade essa praia?! – reclamava Betina.

Finalmente, encontramos a praia. A caminhada valeu a pena. Era realmente incrível. Uma praia pequena, fechada entre as matas e pedras com ares de que o homem ainda não tinha a descoberto e nem desbravado. Montamos acampamento naquele paraíso.

- Agora sim hein? Só saio daqui amanhã à noite na hora de ir embora. Não volto para aquele albergue de quinta tão cedo. – essa era Betina que colocava seus óculos escuros e deitava em sua canga.

- Lili, que história é essa de William aqui?! Te mato se você sabia disso e não me avisou. O Pedro não pode nem sonhar que ele está aqui.

- Relaxa, Diana. O Tavinho me comentou mas ele não tinha me dado certeza. E se eu te falasse você não viria ne?

- Óbvio que eu não viria. Você tá louca em não me contar nada? E agora? O pior é que ele gosta de me tentar.

- Tentação boa ne, Diana? Eu bem vi como você ficou quando ele te beijou.

- Não complica, Betina. Falando nele...

William e Tavinho se aproximaram da gente. Tavinho sentou ao lado de Lili e William se sentou ao meu lado com todo aquele braço forte e suado encostando no meu. Ficamos jogando conversa fora por alguns instantes, até a fome de alguém falar mais alto.

- Tem uma cabana aqui perto que vende um peixe bem maneiro. Se quiserem, posso ir lá buscar. Vamos comigo, Diana?

Esse era William. Antes que eu negasse, ele já tinha puxado o meu braço e minhas amigas me olhavam com cara de boa sorte e não perca o juízo.

....

- Sozinha aqui na praia ou tá sozinha mesmo? – perguntava ele enquanto caminhávamos até a tal cabana.

- Sozinha aqui na praia. – respondi secamente.

- Não imaginava que você viesse. E o seu namorado?

- O Pedro? Ficou em São Paulo.

- E deixou essa joia rara sozinha?!

- William, falta muito para chegar nessa cabana? Estou ficando cansada. – desbaratinei.

- Mais cinco minutos e a gente chega. Quer que eu te carregue no colo?

Dei um olhar de poucos amigos para ele e seguimos em silêncio até a tal cabana. E, em silêncio, eu retornei de volta a praia. Quando chegamos lá, a praia estava lotada e só com o grupo que estava na casa. Obvio que o peixe que compramos não deu nem pro cheiro. Todo mundo atacou e eu acho que comi só um espinho.

....

- Meninas, os meninos estão organizando um luau na praia hoje à noite. Quem topa? – essa era uma loura peituda, a la panicat, que estava hospedada na casa também.

- Eu vou e vocês vão comigo hein?

- Ah, Lili, eu estou ardendo o corpo todo. Acho que peguei muito sol hoje à tarde. – resmungava Betina.

- Também não estou afim e será mais seguro para mim e para o meu relacionamento ficar longe do William.

- Rolou alguma coisa na hora do peixe? Vocë voltou com uma cara.

- Não rolou nada, Lili. E nem vai rolar, mas é claro que ele vai ficar dando indireta e tentar me vencer pelo cansaço. Não estou afim. Vou ficar por aqui, ver se tem algo na geladeira e vou cozinhar porque estou com fome.

- Bem, eu sei que eu vou. Não vou deixar o meu Tavinho solto por aí com essa loira falsificada dando sopa. Eu bem vi ela olhando para ele hoje à tarde lá na praia. Se mudarem de ideia, sabem o caminho hein?

Enquanto Betina descansava no quarto, fui bisbilhotar na geladeira e resolvi cozinhar um prato típico de praia: macarrão com salsichas, a salvação dos famintos praianos. Em meio ao meu momento chef e também divagando com saudades do Pedro, fui surpreendida com um cheiro no cangote.

- Hmmm... vim seguindo esse cheiro maravilhoso lá da praia.

Derrubei a colher do molho no chão.

- Voce está louco??? – era William quem me assustava na cozinha.

- Desculpe. Eu não queria te assustar. Vim buscar cerveja e senti esse cheiro maravilhoso. Vim olhar quem cozinhava.

- Pronto. Já viu que sou eu, agora pode ir. Você e suas cervejas.

- O que está acontecendo, Diana? Você está estranha. Desde que chegou aqui, você me evita, não olha nos meus olhos, parece que tá fugindo de mim, é isso?

William segurou minhas duas mãos e me imprensou na pia. Fiquei sem reação e senti que ele se aproximava demais de mim...

... antes que ele me beijasse, Tavinho entrou na cozinha.

- Ops. Diana? William?

- Não é nada disso que você está pensando, Luis Otávio. – fui me desculpando.

- Eu não estou pensando nada. Ah, o Pedro ligou no meu celular agora há pouco. Queria falar com você. Disse que o seu está na caixa postal.

Ao final desta declaração, senti um baita remorso e culpa. Tavinho e William seguiram com as cervejas para o luau, eu perdi a fome, apaguei o fogo e fiquei na varanda tomando coragem para ligar para o Pedro.

.....

- Ai, aquele quarto está quente demais. – essa era Betina quem tinha resolvido acordar. – ainda bem que esse inferno acaba amanhã. Não vejo a hora de pegar a estrada e voltar para o meu lar doce lar...ih, que cara é essa? Algum bicho te mordeu?

- Quase...

Contei o que tinha acontecido na cozinha para Betina que me convenceu de que eu não tinha feito nada de errado e que, se isso estivesse me incomodando, que eu falasse com o William. Me vesti de coragem e fomos até o tal luau. A gente tinha perdido o sono e resolvemos aproveitar a noite linda que fazia.

Quando chegamos lá, estava rolando o maior barraco. Lili estava se atracando com a loira falsificada porque disse que ela estava dando em cima do Tavinho que assistia a briga de camarote e não movia uma palha para separar a briga. Claro que eu e a Betina tivemos que nos meter no meio e levar a Lili para longe dali.

Depois de muito custo, ela se acalmou e resolveu voltar pra festa. Algumas caipirinhas depois, ela, Tavinho e a loira conversavam como se fossem amigos de infância. Ninguém diria que eles tinham se atracado minutos antes.

Betina resolveu bancar a bartender, coisa que ela adorava, e logo se engraçou com o Diogo, o dono da casa que resolveu não só provar dos drinks da Betina, mas como provar da própria. Os dois se perderam atrás de uma pedra qualquer.

De longe, vi o William se engraçando com uma moreninha e senti um ódio e um alívio ao mesmo tempo. Ódio porque, como assim eu sou trocada tão fácil assim? Alívio porque parecia que ele me deixaria em paz. Já tinha encontrado outra pessoa para se distrair.

A festa, literalmente, acabou quando o sol raiou e alguém resolveu voltar para casa. Me perdi da Betina que tinha desaparecido a noite toda e da Lili que também tinha sumido com o Tavinho e com a loira do tchan.

.....

- Não vou te deixar voltar sozinha para casa. Te devo um pedido de desculpas. – esse era William que me abordara no meio do caminho de volta.

- Acho que você realmente foi longe demais.

- Eu me empolguei. Voce ainda mexe comigo, Diana. Eu não vou negar.

- Mexo tanto que você me trocou pela moreninha rapidinho hein...- ops, escapou.

- Que declaração foi essa? Ficou com ciúmes? – ria William da minha declaração ridícula.

- Ciumes eu tenho do Pedro que é meu namorado. Voce é apenas um amigo.

- Por que você quer que seja assim... eu não...

- William, vamos parar com isso. Não adianta insistir porque daqui não vai sair nada. Na boa, para de me xavecar. Já não rola mais nada e não perde seu tempo comigo ok?

Virei as costas, acelerei o passo e sai batendo as tamancas. Entrei na casa louca para tomar um banho e dormir. Ledo engano, a fila do banheiro tinha senha. Estava enorme, o povo gritava, batia e algum infeliz não abria a porta há quase uma hora!!!

Resolvi ir comer porque meu estomago lembrava que a minha ultima refeição tinha sido o espinho do peixe da tarde passada. Hmmm, aposto que aquele macarrão com salsichas está ótimo para a minha fome. Encontrei apenas a panela raspada que algum infeliz laricado tinha comido e ainda ouvi comentários de que o macarrão estava uma delicia.
Restava então ir na padaria mais próxima que ficava a algumas léguas.

No caminho, encontrei Betina e Diogo que riam à toa. Nem vou dizer por que ne? Perguntaram onde eu ia e resolveram me acompanhar.
Algumas léguas depois, localizamos a padaria pela fila que dobrava a esquina. Tinha me esquecido da hora do rush do pão. Tres pessoas na nossa frente e o padeiro anunciava que tinha acabado o pão, a farinha, que o padeiro tinha pedido demissão por exploração no trabalho.

Lá vamos nós e todos os turistas para o supermercado. Alguns empurras depois e conseguimos resgatar alguns pacotes de pão de forma e biscoitos. Enfrentamos a fila quilométrica do caixa, a lerdeza do operador e a falta de sinal que atrasava o pagamento via cartão de crédito.

....

Chegando na casa, tive que brigar com uma meia dúzia de folgados que não tinham nem colaborado com o dinheiro do pão e se achavam no direito de comer o pacote todo. Finalmente, comi um lanche e aproveitei que o povo ia para a praia e fui tomar um banho.
Um minuto depois de ensaboada, a água acabou. Que situação!

Sai molhada, ensaboada e cheirando a bacalhau do banheiro.

- Eu quero ir embora desse inferno agora! – eu bufava no quarto.

- Ih, calma, onde está o seu espírito aventureiro?

- Não me zomba, Betina. Tudo tem limite. Eu estou fedida, sem banho, com fome e morrendo de saudades do meu namorado. Não é uma boa hora para falar em aventura.

- O Tavinho disse que quer pegar a estrada bem de noitinha. Ele quer fugir do congestionamento.

- Eu estou falando serio. Não aguento mais. Tem alguma rodoviária aqui perto?

Incrivel como ninguém dá moral para as minhas crises. As meninas colocaram o biquíni e me convenceram de ir para praia. Para elas, tudo parecia o paraíso. Ao lado do bonitão do Diogo e pagando de primeira dama, a Betina tinha se esquecido de todo o perrengue e se portava como primeira dama. A Lili bancava a namorada perfeita e marcava território conversando como a melhor amiga BFF da loira peituda. E, eu, emburrada embaixo do meu óculos escuros, observando os amassos do William e da moreninha da noite passada no meio do mar. Que ódio!!!

....

Como a animação da galera estava me irritando, acabei capotando na praia e hibernei a tarde toda. Acordei assustada com a Lili e a Betina que me chamavam avisando que já ia começar a escurecer e que era hora de começarmos a arrumar as nossas coisas. Perdi a noção total do tempo, mas agradeci a Deus por retornar ao meu cantinho.

A nossa partida foi muito mais tranquila. Também ninguém merece ne? Não pegamos transito, o carro do Tavinho não pifou e quando cheguei em casa ainda encontrei o Pedro por lá com um jantarzinho pronto, salvando a larica do meu final de semana.

- Nossa, amor, você não existe. Esse arrozinho, esse bifinho, essa saladinha...ai, meu Deus...estão demais. – eu comia, falava e beijava o Pedro.

- Impressão minha ou você não comeu nada nessa viagem?

- Nem te conto, amor. Foi a maior operação farofa da minha vida...

PAPO DE CALCINHA: VOCE JÁ SE METEU EM UMA OPERAÇÃO FAROFA?

quinta-feira, julho 17, 2014

BENDITO ZAP ZAP



POR LETÍCIA VIDICA


- Lili, dá para parar de mexer nesse celular? – eu perguntava incomodada com a impaciência da minha amiga que não parava de olhar o visor do celular.

- Ai, meninas, me desculpem. Desde anteontem que eu não falo com o Tavinho. Ele não dá um sinal de vida. E o pior é que ele fica online no whatsapp e não fala comigo. Olha só...ele acabou de entrar há dois minutos e não respondeu a minha mensagem!!! Será que aconteceu alguma coisa?

- Ainda bem que eu odeio essas tecnologias. Viu só, Diana? Fica insistindo para eu ter essa porcaria de zap zap e para quê? Para enlouquecer como a Lili? – era Betina quem zombava da cena e, como sempre, confirmava mais uma tese.

- Ah, não exagera. A Lili não é parâmetro né? Calma, Lili...vai ver o celular dele está com problemas...

- E ele não conseguiu consertar até agora?

- ... ou talvez ele esteja sem sinal de internet...

- O celular do Tavinho é 4G e tem uma das internets com a tecnologia mais recente em todo o mundo. Ele comprou essa droga, inclusive, e gastou horrores só para ficar 48 horas conectado... já sei...vou tentar o Facebook...

Nada convenceria a cegueira tecnológica da minha amiga. Ela estava decidida a fazer o Tavinho dar um sinal de fumaça, ou melhor, mandar um balãozinho no celular dela.

***

- Ué, Dona Diana, a senhora vai ficar até mais tarde no escritório hoje? – questionava a minha secretária ao me ver ainda sentada em minha mesa às nove horas da noite de uma sexta-feira.

- Não, não...eu estou esperando o Pedro. Combinamos de ir jantar hoje. Falando nisso, ele me ligou? Tem algum recado na secretária eletrônica?

- Que eu tenha atendido não...

-... estranho, mas tudo bem. Aproveite seu final de semana. Ele já deve estar chegando.

Quarenta minutos depois e nem sinal de fumaça, nem mensagem no facebook e, muito menos, um balãozinho do zap zap. Aquela mistura de úlcera com ansiedade gástrica amorosa me consumia. Comi meu orgulho, montei na minha raiva e liguei para ele. Trim, trim, trim... e caixa postal. Como eu odeio essa voz.

Ok, respira. Tá tudo bem. Deve ter sido um atraso. Um atraso de duas horas ok. Nada típico para o Pedro, mas pode acontecer ne? Vamos ligar mais uma vez. Cinco ligações depois e nada. Caixa postal.

***

- Ué, você não disse que ia jantar com o Pedro hoje? - perguntava Betina surpresa ao me ver chegar no bar do Pedrão.

- Por favor, uma caipirinha de saquê com muito saquê... estou precisando... nem me fala o nome daquele infeliz. – eu bufava. – A gente combinou de ir jantar e ele me deixou plantada lá... nenhum sinal de fumaça sequer.
- Já viu se ele está online no whatsapp?

- Lá vem você e esse zap zap, Lili. Não encana, Diana. Deve ter acontecido algo. Tá tudo bem. Se acalma. Lembre-se que o Pedro não é o Tavinho.

- Hmmm... o que você quer dizer com isso, Betina?!

- Calma, meninas. Não vou estragar a noite de vocês.

Eu bem que tentei esquecer o bolo que o Pedro tinha me dado, mas estava humanamente impossível. Eu não conseguia ficar mais de cinco minutos sem olhar para a tela do meu celular, a cada três minutos abrindo o whatsapp e fuçando no Facebook.

***

- Nossa, amor, você demorou! – era Pedro quem me esperava deitado no sofá da minha casa.

- O que VOCÊ está fazendo aqui que NÃO foi jantar comigo como a A GENTE combinou?! – cuspi fogo.

- Mas eu te avisei. Te mandei um whatsapp. Eu tive uma reunião de última hora com um novo cliente e tive que ir jantar com ele. Eu disse que viria para cá.

- Inventa outra, Pedro. Eu não recebi nenhuma mensagem sua. E custava me ligar?

- Olha aqui... veja o meu celular, Diana... olha... eu te mandei mensagem.

- MAS EU JÁ TE DISSE QUE EU NÃO RECEBI MENSAGEM NENHUMA!!! Você me deixou plantada duas horas no escritório. Custava deixar um recado com minha secretária?

- Não exagera, Diana. Eu já te expliquei que eu te mandei mensagem e que eu tive um jantar de negócios. Achei que você seria mais compreensiva.

- Mais compreensiva?! Me poupe, Pedro. Eu vou tomar banho.

Dei as costas para ele e fui batendo as tamancas para o quarto. Entrei no banho odiando o Pedro e querendo que ele desaparecesse da minha frente. Até demorei no banho para me acalmar, mas estava adiantando.

Quando saí do chuveiro, vi que uma luz piscava no meu celular. Ao desbloqueá-lo, para a minha surpresa, lá estava a mensagem do Pedro. “Amor, me desculpe. Vou ter que jantar com uns clientes. Nos vemos mais tarde na sua casa”. Pois é, riam da minha cara! Ironias da internet 3Jegue como eu costumo chamar o 3G da minha operadora celular.

Com a cara caída no chão, corri para a sala para me desculpar com o Pedro, mas já era tarde. Ele já tinha ido embora. Acho que leu meus pensamentos.

Me joguei no sofá e escrevi uma mensagem para ele. “Amooorrrr, volta! Me desculpa. A culpa não foi sua. A sua mensagem só chegou agora”. Vi que ele tinha entrado no whatsapp há cinco minutos, mas acho que ele resolveu me dar um castigo virtual porque não me respondeu.

Tive que dormir com o rabinho entre as pernas e com o celular embaixo do travesseiro, mas tudo se resolveu no dia seguinte.

Ai, ai, como eu sinto falta do velho orelhão viu? A vida era bem mais fácil e os relacionamentos também.

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ SOFREU DE ANSIEDADE POR CONTA DO WHATSAPP?

quinta-feira, maio 29, 2014

SÍNDROME DA CEGONHA


POR LETÍCIA VIDICA

- Oi, Diana, que horas você vai passar aqui?

- Alô.. mãe?! Você sabe que horas são? – eu respondia com a voz abafada de quem acabara de ser acordada sem conseguir abrir os olhos e tentando colocar o Tico e Teco no lugar.

- Sei muito bem que horas são. Hora de sair da cama. – era o espírito mandão da minha mãe quem falava agora.

- Mãe, pega leve. Hoje é domingo. São dez horas da manhã. Eu vou onde? Passar aí para quê? – eu respondia bufando.

- Como para quê, Diana?! Você esqueceu? Hoje é o chá de bebê da sua prima. Olha, sem enrolação. Levanta dessa cama que eu vou te esperar e vê se não demora. Sua tia odeia atraso hein?

Putz! Eu realmente tinha me esquecido completamente do emocionante chá de bebê da minha prima Adriana. Mas a minha querida mãezinha tinha feito o favor de me lembrar. Me espreguicei e me assustei ao esbarrar o meu braço no rosto do Pedro. Eu também tinha me esquecido completamente que ele estava ali.

- AHN? O quê? Quem era? – ele acordou assustado.

- Era a minha mãe para me lembrar do chá de bebê da minha prima. Vontade zero de ir.

- Vai lá, amor. – disse ele me dando um selinho na buchecha – Vai treinando. Aproveita e bebe da mesma água dela.

- Tá ficando louco, Pedro? !t

- Ué, não ia ser nada mau termos um filhinho hein? Já estou ficando velho, Diana. Quero ser pai e não avô.

Desconsiderei a loucura do Pedro naquele momento e pulei da cama rumo ao emocionante chá de bebê

***

- A próxima é você hein, Diana! – era minha prima Adriana que começara a brincadeira que eu mais odiava ‘quem é a mamãe’.

- Nossa, eu não vejo a hora de ter mais um netinho... – divagava minha mãe.

- Melhor se acelerar, Diana. Namorado bonitão você já tem. Agora só fazer o principezinho.

- Gente, relaxa! Vamos curtir a maternidade da Adriana? Ela ainda tem que reinar muito e eu não tenho nenhuma pressa para isso agora. – eu tentava desviar o assunto, mas foi em vão. Passei a tarde toda tendo que aguentar as lamentações da minha mãe querendo mais um neto, a encheção de saco das minhas tias e o papo sobre fralda e bebês entre minhas primas mamães.

***

- Nossa, gente! Vocês viram o passarinho verde? Para quê tanta animação para uma segunda de manhã? – eu perguntava ao ver aquele burburinho todo na recepção do escritório.

- A Julia vai ser mamãe! Isso não é tudo? – dizia a minha secretaria.
Meu Deus! É alguma síndrome da cegonha? Um baby boom? Mês passado, a garota do almoxarifado saiu em licença maternidade, a contadora está grávida de três meses e agora a recepcionista?

- Cuidado, Diana. Você pode ser a próxima hein?

- Ih, gente, vou começar a trazer água de casa porque eu não bebo mais a daqui hein? Parabéns, Julia! E o papai está feliz?

Percebi que todos me fuzilaram ao final da pergunta. Senti que tinha dado uma bola fora. Alguém desviou o assunto e só depois fiquei sabendo que o pai da criança não queria saber da criança. A Julia tinha engravidado em alguma saída com um peguete que agora dizia que não pegou. Ops, que triste, mas como eu ia adivinhar?!

***

- Lembra do Lima, aquele meu amigo do futebol? O filho dele nasceu hoje. Aproveitei que estava livre à tarde e fui na maternidade. Um meninão. O Lima nem parecia o Hulk que ele é em campo. Estava todo emocionado – contava Pedro com a cabeça deitada em meu colo – Deve ser uma emoção danada ser pai ne?

- Eita... não me olha asssim não. – eu recriminava o olhar de cachorro pidão que o Pedro lançava sobre mim.

- A gente bem que podia começar a planejar, Diana... ia ser tão legal. Que tal a gente começar treinando hoje? Olha aí o seu celular e vê se é o seu período fértil.
Aquela conversa nem parecia de um casal normal. O namorado preocupado com o período fértil da namorada e ela querendo fugir dele.

- Para de loucura, Pedro. Você está emocionado por causa do seu amigo. Vai passar. – desbaratinei.

- Eu não estou brincando, Diana. Olha aí no seu celular... – insistia ele.

- Eu vou olhar so pra você parar de pirar.

Quase tive um treco quando vi no meu aplicativo menstrual que eu deveria estar menstruada, mas não estava. Oh-oh!

- Será que você tá grávida? Vamos comprar um teste?

- Não pira, Pedro. Isso é sério. – respondi preocupada e irritada com ele. – Não pode ser...

- Pode sim ou você não quer ter um filho comigo?

- Pedro, por favor, sem crise psicológica agora. Esse não é o momento!!

- Para você nunca é o momento ne, Diana?

- Pedro, a gente mal voltou a namorar...você ainda não sabe se fica aqui ou em Londres ...eu mal consigo pagar o meu aluguel e você quer que eu tenha cabeça para engravidar? Me poupe ne?
Saí batendo as tamancas, mas muito preocupada e desesperado com a hipótese de estar grávida.

***

- Ia ser bem engraçado te ver como mamãe.

- Não brinca, Betina. Isso é assunto sério. – eu brigava com Betina que me zuava ao terminar de ouvir o meu desespero sobre a suposta gravidez. – O pior é que o Pedro acha isso normal, não tira da cabeça essa ideia de ser pai...

- Mas isso ia ser tão ruim assim, Diana? O Pedro te ama. Ia ser um super pai. Eu não podia escolher para melhor para o meu filho.

A questão é que eu não estou preparada para isso agora.

- Não está agora, não estará depois e nunca vai estar... ninguém se prepara para isso mesmo que planeje... – dizia Betina.

- Pior é que a pressão tem sido tanta que estou com medo de ser contagiada. É minha mãe querendo mais um neto. Minhas tias fazendo promessa para eu ser a próxima da filha. O Pedro querendo ser pai... uma onda de bebês no meu trabalho e agora a minha menstruação que não vem?! Eu vou surtar. Pedrão, desce mais uma, por favor.

- Calma, Diana. A gente te ajuda a cuidar da criança. – brincava Betina.

- O que vai ser de mim? Eu mal sei cuidar de mim!!! E se o Pedro voltar pra Londres? Serei praticamente uma mãe solteira...

Ficamos divagando mil e uma possibilidades sobre minha gravidez até altas horas da madrugada.

***

Cheguei em casa na ponta dos pés para não acordar o Pedro que estava lá. Fui direto para o chuveiro e, para minha surpresa, ao tirar a roupa tive a melhor notícia da noite. O Chico estava lá. Eu tinha menstruado. Soltei um berro de alegria no banheiro que acordou o Pedro e toda a vizinhança.

- O que foi, Diana? – perguntava Pedro assustado.

- Desculpa, amor. Te acordei. Mas não foi dessa vez, eu menstruei.

Pedro me olhou desconsolado, fechou a porta do banheiro e voltou a dormir. Sei que aquele meu momento egoísta foi uma decepção para ele, mas eu nem liguei. Afinal de contas, a cegonha ainda tinha muita gente para atender antes de mim. Ufa!!!

PAPO DE CALCINHA: VOCÊ JÁ PASSOU PELA SÍNDROME DA CEGONHA?

domingo, maio 04, 2014

OS PIORES ENCONTROS DO MUNDO


Por Letícia Vidica

- E aí, Betina, como foi o encontro como bofe ontem? - perguntava a curiosa da Lili em mais um happy hour de sexta das garotas super poderosas no bar do Pedrão.

- Uma merda! - respondia seca e friamente nossa amga Betina.

- Nossa, mas o que aconteceu? O advogado lá não era tudo de bom, estava cheio de amor para dar? - perguntei.

- Primeiro, ele está muito longe de ser um advogado. Está mais para estagiário...você acredita que a gente saiu para beber e o cara ficou bebendo água com gelo a noite toda?! Um duro.

- Eu não creio. Que coisa mais bizarra!

- Este acaba de entrar para minha black list dos piores encontros do mundo. Não quero vê-lo pintado nem de ouro... se precisar de mim para ser aprovado no estágio, eu reprovo. - finalizava o assunto com um gole brusco de caipirinha.

- Mas o que você esperava, Betina? Já te disse para parar de sair com esses garotões cheirando a leite. O máximo que eles vão poder te pagar é um MC lanche feliz. - eu respondia rindo.

- Isso. Podem me exorcizar mesmo. Eu mereço.

- Nossa, gente, não tem nada pior do que encontro ruim. Acho que só tem uma coisa que vence isso é transa ruim.

- Nossa, Diana, nem fala. Uma vez saí com um cara bombadão lá da minha academia. Todo metido a máquina de sexo. Na hora H, além de eu quase ter que chamar o Procon por propaganda enganosa, o malhadão não conseguiu concluir o serviço. Pior, ainda perguntou se eu gostei. Claro que eu fingi que sim, mas fiz questão de ir embora correndo de lá.

Caímos na gargalhada e pedimos mais uma rodada de caipirinhas com uma gordurosa porção de pastel.

- E você, Diana, qual foi o seu pior encontro? Vamos lá...a brincadeira tá ficando interessante. - instigava Betina.

- Hmmm... uma vez saí com um cara que era mais feminino do que eu...todo vaidoso, uma voz toda meiga e acreditam que ele usava saquinho plástico só para não sujar o tênis? Achei aquilo uó...brochei geral quando vi isso e o pior...acabamos indo parar num drive-in para conversar e, mesmo com as urradas do casal da cabine ao lado, o cara não fez nada e ainda tinha um papo chatíssimo. Agradeci por ele não ter me procurado mais.

- Ai, isso é péssimo. É claro que a gente gosta de um homem cheirosinho, bem arrumado, mas não precisa ser demais. Uma mão suja de graxa e uma jogada na parede não faz mal a ninguém. - ria Lili.

- Eu acho que os pseudos encontros perfeitos são os piores. Aqueles que parecem que serão perfeitos, mas aí uma frase mal dita ou uma desculpinha esfarrapada acaba com todo o clima. - eu completava.

- Lembrei que uma vez saí com um cara que pediu e comeu quase todo o cardápio do restaurante. Era uma draga. E o pior é que ele achava sexy ... que terrível! - dizia Betina.

- Mas pior que comer é a falta de assunto. Nada mais péssimo do que um assunto que não flui no primeiro encontro...aquele silêncio constante...ter que ficar fazendo interrogatório para um assunto fluir... muito chato!

Passamos a noite toda divagando sobre os piores encontro que já tivemos e rimos muito também. Quem nunca né?

PAPO DE CALCINHA: Qual foi o pior encontro que você já teve/

domingo, abril 13, 2014

DE PERNAS PRO AR


POR LETÍCIA VIDICA


Tive o meu bate-papo de meninas interrompido pela vibração do meu celular. Cessei a minha gargalhada que, com certeza, tinha sido causada por alguma bobagem que a Lili tinha dito. Dei o último gole, travei uma batalha dentro da minha bolsa até encontrar o meu celular. Ufa!

- Puta que pariu!! Esqueci completamente. Eu tenho exames ginecológicos amanhã de manhã. Que horas são? Que merda! Onze horas. Meninas, tenho que ir embora. Só uma idiota como eu para marcar exames às 07 horas da manhã de uma sexta-feira.

- Relaxa, garota. Não vai. Simples assim.

- Simples assim para você que tem médico particular, Liliana. Eu não tenho Bittencourt no nome. Eu dependo de plano de saúde. Quase um SUS, vamos dizer. Sabe quando eu marquei esses exames? Há dois meses. Beijinhos, amo vocês, mas vou nessa.

****

Quando o meu despertador tocou às 05 horas da manhã, eu quase quis matar a mim mesma. Sonâmbula, tropecei no vento, tomei um banho, coloquei a primeira roupa que sorriu para mim no guarda-roupa, fiz um coque básico, peguei a chave do carro e levei meu corpo para dentro dele.

Incrível que como por mais a gente se programe para chegar com uma hora de antecedência na clínica, essa é uma tarefa puramente impossível. Nem bem raiou o sol e eu já estava no meio do congestionamento.

Finalmente, cheguei na clínica para enfrentar a maratona de exames internas dentro do meu ser. Eu odiava passar por tudo aquilo, mas era necessário. A recepção já estava lotada. Peguei a senha e vi que outras trinta pessoas estavam na minha frente. Olhei os sites, li meus emails, joguei Candy Crush, fucei no facebook até ser chamada.

***

- Diana...

Uma enfermeira que parecia ter a metade da minha idade e o dobro do meu humor àquela hora da manhã me chamou na porta da sala.

- Por aqui, por favor, Dona Diana. Tire toda a parte de baixo e tem um avental ali dentro do banheiro. Fique à vontade.

É possível ficar à vontade dentro de uma sala gelada ao lado de duas mulheres estranhas que estão prestes a analisar a sua mais profunda intimidade?! É, meus amigos, isso é a vulvoscopia e a colposcopia. Só pelo nome já deveria dar medo.

Se não bastasse a enfermeira simpática, agora eu encararia a médica primária feliz.

- Dianinha, abaixa mais. Coloque as pernas nas almofadas e deixe o bumbum bem na pontinha da maca. Vai ser rapidinho...

Apesar da voz doce de professora primária, eu não estava nada confortável parecendo uma rã com as pernas abertas com toda a minha intimidade sendo explorada e cavucada por aquela mulher. Como eu odiava tudo aquilo. Mas, como tudo que está ruim pode piorar, quase desmaiei quando olhei para a televisão à minha frente e vi que minha perseguida era a atração principal. Quem foi o gênio que teve a ideia brilhante de fazer desse exame um verdadeiro big brother? Fechei os olhos porque aquilo tudo estava me dando enjoo.

- Prontinho. Está tudo bem com a sua menininha. - dizia a médica feliz ao finalizar o exame.

Já eu saía como uma pata, com uma leve cólica e muito estranha por saber que aquela mulher agora era tão íntima assim de mim.

***

- Diana. Diana... Diana...

Acho que ainda estava meio tonta ou sonolenta que só ouvi chamarem meu nome na terceira chamada. Ao contrário da enfermeira simpática e da médica feliz, me deparei com uma enfermeira prestes a se aposentar com cara de quem estava totalmente descontente com o trabalho.

- Tira a parte de cima.

Nossa, calma! Seja delicada. Eu sou sensível!

Agora, eu ia encarar um ultrassom de mamas. Isso mesmo. Era a vez de explorar os meus seios. Sem um bom dia sequer, a médica ranzinza jogou aquele gel gelado nos meus seios e começou a fazer a ultrassonografia com aquele aparelho nada agradável. Que situação mais desconfortável! Tentei me concentrar nos afazeres do dia, mas não estava nada bom aquele gelzinho e aquela exploração Discovery Channel nas minhas mamas.

*****

Como eu queria ir para casa, mas ainda faltava o exame mais invasivo de todos. O ultrassom transvaginal. Quem foi o ginecologista depravado que inventou isso?! Além de atrasada para uma reunião importantíssima que eu tinha marcado, contando com a falsa pontualidade dos laboratórios de exame, o meu nome nunca era chamado. Eu já não tinha mais desculpa para inventar para minha secretária sobre o meu atraso.

Trinta longos minutos de atraso depois, muitas lidas na revista Caras (amassada) do ano passado e uma supervisionada no instagram...fui chamada.

A prima da enfermeira simpática chamou o meu nome com uma voz doce de quem anuncia que uma tempestade está por vir. Entrei na sala e dei de cara com um japonês barrigudo com cara de comercial de televisão coreana. Opa! Espera um pouquinho aí. Eu vou ter que abrir as minhas pernas e deixar esse japonês com cara de quem não come ninguém desde a Santa Ceia me explorar com esse aparelho que mais lembra um vibrador?! Pelo amor de Deus, onde é a porta de saída?

- Dona Diana, só tirar toda a parte de baixo. O aventalzinho está pendurado no banheiro. - dizia a enfermeira feliz com voz de quem diz 'Calma! Ele é inofensivo'.

Acho que demorei uns dez minutos ou até mais ou muito mais para sair daquele quadrilátero minúsculo que eles ousam chamar de banheiro. A DR com a minha consciência estava frenética. 'Calma, Diana. É só um exame. Saia desse banheiro, deite na maca e deixa acontecer naturalmente. Não se sinta tão privilegiada. A sua perseguida não será a primeira e nem a última que esse japonês vai examinar', dizia o lado mais sensato da minha consciência. 'Tá louca?! Você não viu o olhar de tarado maníaco sexual que ele lançou sobre você quando entrou na sala?! Vai ter coragem de ficar sozinha nessa sala escura com esse homem desconhecido enquanto ele introduz um aparelho, quase vibrador, dentro de você?! O Pedro não ia gostar nada disso'.

- Tudo bem, dona Diana? - era a enfermeira mega simpática que interrompia meus pensamentos.

Respirei fundo, saí da sala e encarei a triste realidade.

- Bom dia, dona Diana. É apenas um exame de rotina? Pode se deitar e fique à vontade. Serei breve. Qualquer incômodo, me avise. - era o japonês com uma voz que nada lembrava um maníaco sexual. Naquele momento, fiquei com raiva de mim mesma por julgá-lo tanto assim.

Ok, ok. Fiquei contando carneirinhos, pensando no meu dia, no meu almoço, no Pedro... enquanto eu me submetia àquele exame nada agradável.

- Prontinho, dona Diana. Tá tudo bem. Seus exames acabaram ne?

Saí até meio tonta depois de toda aquela exploração e desbravamento no meu corpo. Era como se as coisas estivessem fora do lugar sabe?

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Pior ou melhor de tudo isso é esperar mais uma eternidade pelos resultados. Recebê-los, abri-los, tentar bancar da Dr. House e ler os diagnósticos. Eu nunca entendo, mas a minha curiosidade fala mais alto.

O melhor do melhor ainda é esperar mais uma outra eternidade para conseguir um espaço na agenda da sua ginecologista só para marcar um retorno. Chegar ao consultório, vê-la abrir os exames com cara de mistério ou de quem vai dar o diagnóstica de alguma doença sexualmente transmissível incurável ou vai te dizer que está grávida de quintuplos. Minutos angustiantes e intermináveis.

- Você está ótima! Seus exames foram perfeitos. Está tudo bem. - diz ela sorrindo.

Como assim?! Quer dizer então que eu me submeto a praticamente uma autópsia das minhas partes mais íntimas, abro as minhas pernas para as pessoas mais estranhas do mundo, acordo cedo e aguardo quase dois meses para sentar no consultório e, em três minutos, receber o diagnóstico que está tudo bem?! Eu sempre soube que estava tudo bem! Não precisaria passar por tudo isso, não é mesmo doutora?

- Ufa! Que bom! Obrigada! - é a única coisa que consigo dizer.

- Mas não se esqueça. Daqui uns seis meses, a gente repete tudo de novo.

Um trilha de filme de terror toca na minha mente, olho para a médica com cara de boneco assassino e sorrio. O que eu posso fazer? Daqui seis meses, tem mais!


PAPO DE CALCINHA: Você também se sente desconfortável com esses exames? Tem alguma história curiosa para nos contar?